Sabrina Noivas 30
Expectations

Um amor intenso, destinado a ser eterno...Incumbida de organizar o casamento da irm, Marion viu-se perdida. Como providenciar 1 casamento quando o seu estava prestes a terminar? Aps 10 anos de unio, Geoff a trara e ela no o considerava mais digno de seu amor. Porm, em nome da felicidade da irm, deixaria que ele ficasse em casa at depois da cerimnia. Durante esse tempo, fingiriam ser 1 casal feliz. Mas ser que conseguiriam desempenhar os papis com perfeio at o final?

Digitalizao e correo: Nina

Srie Weddings, Inc.

Autor	Ttulo	Ebook	Date
Marisa Carroll	Wedding Invitation
	Jun-1994

Shannon Waverly	Expectations
Sabrina Noivas 30 - Ensaio De Casamenro	Jul-1994

Vicki Lewis Thompson	Wedding Song
	Aug-1994

Muriel Jensen	The Wedding Gamble
	Sep-1994

Sara Wood	The Vengeful Groom
	Oct-1994

Jasmine Cresswell	Edge of Eternity
	Nov-1994

Margaret Moore	Vows
	Dec-1994

Marisa Carroll	Marry Me Tonight
	Mar-1995



Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1995
Publio original: 1994
Gnero: Romance contemprneo
 Estado da Obra: Corrigida











CAPITULO I

Marion no lembrava de algum dia haver desejado no receber a visita da irm. Porm, quando levantou a vista, enquanto arrumava o balco da loja, e viu Robyn passar pela porta com seu costumeiro ar sorridente, murmurou um audvel "Oh, no!" consigo mesma. Felizmente, Robyn no chegou a ouvir o protesto.
	Oi, maninha!  ela sorriu com um aceno.
Marion forou um sorriso, o primeiro do dia, ou da semana, dizendo a si mesma que estava contente em ver a irm. Era precisamente por estim-la tanto que, por um momento, sentira-se aturdida.
Deu a volta pelo balco e foi abraada com empolgao.
	Por que no telefonou, avisando que viria?
	E por acaso preciso de convite para visit-la?
Sorrindo, Marion deu um passo atrs. Sua irm tornara-se mesmo uma linda jovem de vinte e quatro anos. Ambas tinham os cabelos loiros da me, s que Marion mantinha os seus longos e retos, enquanto Robyn preferia um corte mais curto e cacheado. As duas tinham os olhos cor-de-safira do pai. Embora fosse apenas sete anos mais velha do que a irm, Marion no sentia nem de longe a mesma disposio de Robyn.
	Tudo bem com voc?  indagou Robyn com um leve ar de preocupao.
Se ao menos Robyn soubesse a pergunta difcil que fizera!, pensou Marion.
	Sim, tudo em ordem  respondeu, conduzindo a irm para o interior da loja.
Em torno delas, as luzes refletiam-se sobre brilhantes, prata e ouro. Do lado de fora, a joalheria exibia uma inegvel aura de elegncia, alis como todas as lojas da pequena cidade de Eternidade, em Massachusetts. De fato, essa era uma das joalherias mais finas, ao norte de Boston. Marion contratara quatro empregados em turnos de meio perodo, para ajud-la nas vendas.
Os pais haviam sido os donos da loja antes dela. Fora ali que ela aprendera a amar as coisas belas. Esse amor a levara no apenas a tornar-se proprietria da loja, quando os pais se aposentaram, mas tambm a desenhar jias cuja reputao se ampliava cada vez mais.
	Ainda no almoou?  perguntou  irm.
	Comi um sanduche na estrada, mas aceito uma bebida gelada. Sem dvida, esse ms de junho est sendo um dos mais quentes dos ltimos tempos. Esse ar condicionado  realmente uma bno!
Robyn abriu os braos, refrescando-se como um pssaro ao vento. Diante da animao da irm, Marion sentiu-se ainda mais deprimida. Seu casamento, que andava em crise nos ltimos anos, finalmente terminara. "Implodira", era o melhor termo.
Depois de dez anos, Geoff partira, e ela ainda no contara para ningum da famlia. Talvez a inesperada visita de Robyn fosse uma indicao de que chegara a hora de contar.
Mas como?, Marion perguntou-se, indo at o pequeno refrigerador, na sala dos fundos. Verbalizar as palavras seria doloroso. Tornaria a separao uma realidade que ela ainda relutava em aceitar. E, nessa manh, acordara com uma espcie de melancolia, sentindo os olhos marejados de lgrimas s de pensar em Geoff. Sabia que isso era ridculo, mas no conseguia evitar. Depois do modo como ele a trara, ela deveria era estar contente com a separao.
Voltou com duas latas de refrigerante e entregou uma a Robyn.
	E ento, como esto as coisas em Newport?
	Esplndidas!  Robyn abriu a lata, lanando um sorriso para a irm.
	E como est indo no servio particular?  Marion sentou na cadeira atrs do balco e fez um sinal para Robyn ocupar a outra.
	Acredite ou no, voltei para o hospital h trs semanas.
Puxa, faz tanto tempo assim que nos vimos?
O olhar de Marion tornou-se vago. Com seu casamento se desfazendo, ela no quisera conversar com ningum. Na verdade, dera graas por seus pais estarem morando na Flrida.
	Como est Nate?
O sorriso de Robyn se ampliou.
	Ele  a razo de eu estar aqui.
Olhou para Marion durante vrios segundos.
	E...?  Marion incentivou-a.
	Ele... ele me pediu em casamento.
	No!
	Sim!
Marion no conseguiu se mexer. Uma parte de seu ser queria comemorar com alegria a notcia, mas a outra, que ainda estava magoada, no permitiu que ela se manifestasse.
	E voc aceitou?
	Eu o qu?
Marion deu de ombros, sentindo-se tola pela pergunta.
	O nico problema  que ele ser transferido para o Texas em apenas quatro semanas.
	Oh, Rob. O que vai fazer? Ele espera que voc pegue suas coisas e o acompanhe?
Robyn pareceu um pouco surpresa.
	Bem... sim. Mas eu quero ir.
Marion conteve a respirao. Era to parecida com a irm quando ela e Geoff estavam noivos! Ela o teria seguido at o inferno, se fosse preciso.
	Quer dizer que a famlia ter que viajar metade do pas para o casamento?
A expresso de Robyn tornou-se preocupada. S ento Marion percebeu que sua pergunta havia sido rude e egosta. Deveria estar parabenizando a irm, em vez de demonstrar todo esse ressentimento.
	No, ningum ter de ir at o Texas. Queremos nos casar antes da transferncia de Nate, aqui mesmo em Eternidade. Esse  o problema.
	Aqui? Dentro de quatro semanas?  Marion empertigou-se.  Que tipo de casamento voc espera realizar com um prazo to curto?
	O mais bonito possvel  respondeu Robyn.  Porm, sou realista. Sei que ns teremos de providenciar uma poro de coisas.
	Ns?
Robyn sorriu.
	Bem, j que voc conhece todo mundo ligado ao setor de casamentos aqui da cidade, pensei que talvez...
	Eu pudesse providenciar a cerimnia para voc?  Marion empalideceu.
	Mas no sozinha. Eu a ajudaria em tudo. Pensei que sendo scia da Casamentos, Ltda., voc tivesse mais facilidade com os contatos.
Casamentos, Ltda., era uma associao de comerciantes locais, todos envolvidos com o negcio de casamentos. Bron-wyn Powell, amiga de Marion, organizara tudo e expandira o negcio a ponto de agora serem capazes de providenciar qualquer tipo de cerimnia de casamento em Eternidade.
Marion encostou-se na cadeira, respirando fundo.
	Est mesmo determinada a se casar aqui?
	Sim, claro. Voc sabe que eu sempre quis me casar na capela Powell.
Os Powell, uma das famlias mais tradicionais de Eternidade, haviam chegado na Amrica no meio do sculo XEX e construdo uma capela particular na fazenda da famlia, imitando as igrejas de Wales, sua terra-natal. Dentro de pouco tempo, criara-se uma lenda romntica em torno da capela. Segundo ela, nenhum casamento ali realizado trazia infelicidade. A lenda se espalhara e, por mais de um sculo, casais viajavam at Eternidade para casar na capela.
O problema era que a lenda no passava de uma inveno espalhada pela Associao Comercial, cujo nico interesse eram os lucros gerados com a histria. Marion sabia muito bem disso. Afinal, casara-se na capela e agora lamentava o fim do seu casamento.
Que tal Newport?  arriscou.  Um casamento em estilo militar  de tirar o flego.
Robyn no apenas pareceu perplexa, mas tambm magoada.
	Como pode sugerir uma coisa dessas, Marion?
	Bem... a capela pode estar com as datas esgotadas...
	Aceitarei qualquer data disponvel. No quero correr nenhum risco com meu casamento.  Franziu o cenho.  Marion, no deseja que eu me case na capela? No quer que meu casamento dure e seja feliz, como o seu?
	Oh, querida, claro que quero! Desejo-lhe toda a felicidade do mundo.
A observao deixou Marion triste. Adorava a irm. Desde que a me chegara com ela do hospital, Marion adotara Robyn como seu beb.
	Vou ajud-la no que for preciso  acrescentou.
Assim que falou, Marion quase se encolheu. Concordando em ajudar, estava quase garantindo que sua irm se casaria em Eternidade. Em consequncia, teria de contar  famlia que havia se separado de Geoff, e logo.
O que mais a preocupava era o fato de ter que incomod-los com seus problemas. Geoff fazia parte da famlia h doze anos. Todos ficariam magoados com a notcia, o que seria terrvel diante da perspectiva do casamento de Robyn.
	Obrigada, Marion  Robyn agradeceu.  Falei srio, vou ajud-la em tudo.
	Quer que Bronwyn realize a cerimnia?
Entre outras ocupaes, Bronwyn tambm era juza de paz.
	Sim, claro.
	Ento, o que pretende fazer no Texas? Existem hospitais perto da base, onde voc possa trabalhar?
	Hum-hum. Mas s pretendo fazer isso durante um ano.  Robyn sorriu novamente.  Assim que possvel, quero ficar em casa e ter muitos filhos.  Tornou-se sria de repente.  Oh, Marion, desculpe.
Marion fez um gesto de pouco caso, irritada por todos terem receio de falar de bebs em sua presena.
	Realmente no se incomoda?
	No. Geoff e eu aceitamos nossa condio e continuamos com nossas vidas.
		Bem, mas isso ainda pode acontecer, no ? Ou ento podero fazer uma adoo.
"Pouco provvel", pensou Marion.
	Hei, esse no  o tipo de assunto que deveramos estar discutindo.
	Certo  Robyn anuiu.  Tenho um milho de coisas para providenciar. Antes de ir, porm, quero lhe pedir outro favor. Nate e eu queremos que voc e Geoff sejam nossos padrinhos.
Marion sentiu o estmago se contorcer.
	N-no tenho certeza se isso ser possvel, Rob.
	Mas voc  minha nica irm. Sempre sonhei em t-la como minha madrinha de casamento.
Marion mordeu o lbio.
	Claro, ser um prazer. Mas Nate deve ter algum mais ntimo do que Geoff para servir de padrinho. Um amigo de infncia? Algum colega da Marinha?
	Sim, mas ele quer Geoff. Nate o admira e, bem, sempre consideramos vocs dois o casal mais fantstico que conhecemos. Com vocs do nosso lado, no altar, esperamos obter a mesma sorte em nosso casamento.
Marion ficou de p e cruzou os braos. Andou at a porta da loja. Sentiu os olhos ardendo e a garganta embargada. Atrs dela, Robyn continuou:
	Nate e eu sabemos que nosso casamento no ser perfeito. Assim, em cima hora, teremos sorte se conseguirmos um local para a recepo, mas poderemos sobreviver com isso. Todavia, no posso dizer o mesmo se no tivermos voc e Geoff como nossos padrinhos. Nos espelhamos em vocs, Marion.
"Ah, no diga isso, Robyn, por favor!", Marion pediu em pensamento. "No  nada do que vocs pensam". Olhou para o outro lado da rua. Um pouco para cima, na diagonal, ficava o escritrio de Geoff. Na porta de vidro, lia-se: Geoffrey Kent, advogado. Automaticamente, Marion levantou a vista para as janelas do segundo andar.
	Hei, no quero nada de lgrimas nesse casamento  Robyn avisou.  Portanto, pode tratar de ir segurando o choro desde agora.
Marion a viu ficar de p.
	Sim, senhora  respondeu, forando um sorriso.
Robyn olhou para o outro lado da rua.
	Ok, agora vou contar a novidade a Geoff. Mal posso esperar para ver a expresso do rosto dele.
	Espere, Robyn!
	O que foi?
	Uh...  O pulso de Marion se acelerou.  Ele no est l.
	Por qu?
	Bem, ele... viajou para Boston hoje.
	Oh.  Robyn ajeitou os cabelos.  O que farei agora?
Nate ficar no mar durante duas semanas. Ele me pediu para falar com Geoff.
Marion achou que a situao j estava indo longe demais. Precisava explicar tudo para a irm. Agora.
Abriu a boca para contar, mas bastou observar o olhar cheio de expectativa de Robyn para perder a coragem.
	Falarei com Geoff hoje  noite, quando ele chegar.
Que tal?
O desapontamento de Robyn cedeu lugar  sua costumeira animao.
	Otimo!  ela aprovou.  Oh, quase esqueci! Preciso de mais um favorzinho. Est com tempo para desenhar nos sas alianas de casamento?
Com o nmero de atividades que estava exercendo ultimamente, Marion mal tinha tempo para respirar. Alm disso, no se encontrava com estado de esprito para desenhar alianas de casamento.
Por outro lado, j desenhara centenas de alianas para desconhecidos. Na verdade, essa era sua especialidade. Como poderia recusar o pedido de sua prpria irm?
	J tem algo em mente?
	Vagamente.
	Ento por que no senta um pouco e olha meus catlogos?
Claro que nunca desenho dois pares exatamente iguais.
	Eu sei. Isso porque os casamentos nunca so iguais, certo?
	Certo.
Marion tornou-se consciente disso enquanto conversava e rodava a prpria aliana no dedo. Fora o primeiro modelo que ela desenhara. A nenhum outro ela dedicara tanto empenho e carinho.
Imaginou se Geoff ainda estaria usando a dele, ou se j a jogara em uma gaveta, entre as meias.
	Hei, Marion, voc est bem?
	O qu? Oh, sim, estou. V dando uma olhada nos meus catlogos.  Um cliente acabara de entrar na loja.
 Irei v-la assim que puder.
Vinte minutos depois, o cliente fizera a compra e Robyn escolhera um modelo. Depois de dizer a Marion o tamanho de seu anel e do de Nate, ela dirigiu-se  porta.
	Agora vou  loja de noivas  anunciou Robyn.  No pode vir comigo? Tambm precisamos encontrar um vestido para voc.
Marion olhou sobre o ombro, notando mais alguns clientes que haviam entrado pela outra porta da joalheria.
	Agora no d, Robyn. Estamos meio apertados com o servio por aqui. Irei encontr-la daqui a meia hora.
	Ok, ento.
Assim que a irm saiu, Marion apressou-se at a sala dos fundos e fechou a porta. Precisava avisar Geoff de que Robyn estava na cidade. Se ele revelasse a verdade  sua irm, Robyn ficaria arrasada.
Quando pegou o telefone, sentiu uma onda de nusea. Recolocou o fone no gancho, levando a mo ao estmago.
No falava com Geoff h seis dias, desde que ele partira. Agora a ideia de telefonar para ele trouxe-lhe  mente uma imagem que lhe causou nusea: Geoff abraando outra mulher, no escritrio.
Respirou fundo algumas vezes. Quando sentiu-se um pouco mais segura, pegou o telefone novamente. Teclou o nmero com dedos trmulos.
	Geoffrey Kent, advogado. Em que podemos ajudar?
	Freddie? Oi,  Marion.
Esperou o costumeiro cumprimento do ajudante de Geoff, porm seguiu-se apenas um silncio.
	S-sim?  ele balbuciou, por fim.
Marion suspirou. Ser que Freddie j sabia sobre a separao?
	Geoff est a?
	Sim, est. Q-quer falar com ele?
Marion entrelaou os dedos entre os cabelos.
	Sim.
	S um momento. Vou ver se ele pode atend-la agora.
Marion fechou os olhos. Sabia que Geoff selecionava as ligaes, mas nunca as dela. Nunca.
Passaram-se longos segundos. Seu corao batia cada vez mais acelerado. Ouviu um estalo na linha. Mais alguns segundos se passaram e algo lhe disse que Geoff j estava do outro lado da linha. Estaria ele to nervoso quanto ela?
	Oi, Marion  finalmente ouviu a voz dele.
Parecia calmo, controlado. Como um advogado deveria ser.
	Oi.
A voz de Marion, por outro lado, saiu trmula, denunciando sua vulnerabilidade.
A linha voltou a ficar em silncio. Ela no sabia o que dizer. Pensou nas perguntas que as pessoas costumam fazer no incio de uma conversa: "Como voc est? Quais as novidades?" Entretanto, considerando as circunstncias, as questes simplesmente no se adequavam ao contexto.
	O que voc quer, Marion?  Geoff foi o primeiro a falar.
Ela franziu o cenho, tentando se concentrar. De sbito, sentiu um riso histrico se formando em sua garganta. Sempre soubera o que queria e tivera certeza das coisas. Quisera apenas tornar-se esposa de Geoff at o fim de seus dias, compartilhar sua vida, construir um lar confortvel para ele e ter muitos filhos para ench-los de alegria.
Agora tudo que ela queria era parar de sofrer. Gostaria de poder voltar o calendrio doze anos, de volta para o primeiro dia em que vira Geoff. Naquela poca ele era novo na cidade e as garotas s falavam dele.
Deveria ter contido o sorriso, recusado o convite de Geoff para danar e continuado com sua vida normal.
	Marion?
	Eu... eu preciso falar com voc.  importante. No teria ligado para seu escritrio, se no fosse. Pode conversar agora?
	Sim, mas no por muito tempo. Tenho dois ou trs minutos disponveis. Um cliente est me esperando no andar de baixo.
	Oh... uh...
Marion nunca conseguira dizer tudo que queria em pouco tempo. Todavia, no falar nada tambm seria idiotice.
	Detesto dar a notcia assim de repente, Geoff, mas Robyn e Nate decidiram se casar.
Seguiu-se outro silncio. Geoff tinha um grande afeto por Robyn e Nate. Em circunstncias normais, ele estaria rindo e fazendo piadinhas com a notcia.
	J marcaram a data?  indagou ele.
Marion explicou o problema da transferncia de Nate e do desejo de sua irm em casar na capela da cidade.
	Maldita Capela de Eternidade!  protestou Geoff.  Esses dois esto realizando o contrato mais srio de suas vidas e envolvendo vrias pessoas nisso. E para qu? S para casar nessa capela idiota.
	Eu sei, eu sei  Marion anuiu.
	E qual foi a reao de Robyn ao saber da nossa separao?  Geoff quis saber.
Marion sentiu um aperto no corao ao ouvir Geoff falar sobre a separao de uma maneira to casual.
	Ela... ainda no sabe. No contei a ningum da minha famlia.
	Oh, agora estou entendendo esse telefonema  disse Geoff.  Robyn quer me convidar para o casamento, certo?
	No.
	No?  Ele pareceu surpreso e magoado ao mesmo tempo.
	E mais do que um simples convite.  Marion engoliu seco.  Robyn e Nate... eles querem... que ns sejamos... os padrinhos.
	Est brincando!  Geoff espantou-se.
	Gostaria de estar.
	E voc no, claro.
	No exatamente.
	No exatamente!  Geoff repetiu, impaciente.  Est querendo dizer que aceitou?
	Bem...
	Marion, como pde fazer uma coisa dessas? Como diabos ficaremos em um altar, como padrinhos, se nem estamos mais juntos?
	No sei!  ela explodiu, tambm impaciente.  Nesse momento, no sei de nada. Tudo que posso dizer  que aceitarei ser a madrinha. No tenho como me livrar desse compromisso por causa da minha irm, mas darei um jeito de livr-lo, pode deixar. S liguei para avis-lo de que Robyn est na cidade. Saiu para fazer compras durante as prximas horas.

	Oh.
	Se por acaso se encontrar com ela, por favor no conte sobre a nossa separao. Prefiro fazer isso pessoalmente e no momento certo.
Geoff gemeu.
	No preciso mais passar por esse tipo de situao.
	E voc acha que eu preciso?  Marion alteou a voz.
	Hei, calma! No quero discutir pelo telefone.
	Ah, ? Ento onde prefere discutir?  Marion ouviu-se dizer num impulso.  Desculpe. Tambm no quero brigar.

	Tudo bem. Estamos cansados, s isso. Oua, preciso passar em casa para pegar mais algumas roupas. Que tal continuarmos essa conversa  noite?
	Essa noite?  ela empertigou-se.  Voltar para casa ainda hoje?
	Sim. Por volta das sete e meia. Primeiro preciso participar da reunio de planejamento da cidade.  Quando ela
no respondeu, ele acrescentou:  Algum problema para voc?
	No, no. De fato, terei de comparecer  mesma reunio.
	Pelo Comit do Espao Aberto?

	Sim.
	A respeito da Fazenda Borden?
	Sim.
	Creio que a verei por l, ento.
	, acho que sim.
Aps se despedir, Marion desligou o telefone e cruzou os braos. A sala dos fundos estava silenciosa, mas uma das frases de Geoff ainda ecoava em sua mente. Ele apareceria em casa para pegar mais roupas.
Aos poucos as intenes de Geoff tornavam-se mais claras para ela.
A reunio de planejamento acontecia todas as quintas-feiras, s sete da noite, na sala de conferncia do segundo andar do edifcio Town Hall.
Em resumo, qualquer um que quisesse fazer algo pblico na cidade de Eternidade, tinha de apresentar o projeto nessa reunio, estando sujeito a crticas e elogios.
Como participante do Comit do Espao Aberto, Marion era radicalmente contra o desenvolvimento dos projetos da Corporao Seatham, uma grande empresa de Boston com filiais em Atlanta e Houston. Essa empresa queria reestru-turar vrios acres de Eternidade, para construir condomnios com vista para o mar, detalhe que triplicaria o preo dos imveis. Porm, Marion achava que o projeto arruinaria o ambiente natural da cidade.
Ela chegara no edifcio Town Hall com indigesto, mas pelo menos no estava atrasada. Percorreu a vista pela sala, localizando o pequeno grupo j sentado. Os principais executivos da Corporao Seatham no haviam deixado seus suntuosos escritrios em Boston para participar dessa reunio, mas isso no importava. Estavam muito bem representados nessa noite, segundo Marion pde notar. Na primeira fileira, encontrava-se o advogado recm-contratado da empresa: Geoffrey Kent.


CAPITULO II

As cadeiras de metal estavam enfileiradas, m pouco espao entre elas. Com cuidado para no olhar para Geoff, Marion ocupou um lugar ao lado de dois outros membros do Espao Aberto.
Conversou alguns minutos com eles, sentindo o corao acelerado dentro do peito. Disse a si mesma para relaxar. Confrontar Geoff pela primeira vez como uma pessoa estranha seria difcil, mas as primeiras vezes eram sempre as piores. Depois seria mais fcil. Assim ela esperava.
Por fim, quando no conseguiu mais conter a curiosidade, arriscou um olhar na direo dele. Geoff estava olhando para ela. Marion sentiu uma pontada no peito. Como sentia falta dele! Como a casa ficara vazia depois que ele partira! No se deixara admitir isso at agora.
Geoff cumprimentou-a com um gesto de cabea. Marion respondeu, percorrendo a vista por ele como se o estivesse vendo pela primeira vez. Imaginou se a separao fazia isso com as pessoas.
Geoff era um homem muito atraente. De fato, "perfeito" fora a palavra que ela usara quando tinha dezenove anos e o descrevera  amiga Bronwyn. Porm, o fato de ser alto, moreno e atraente era apenas parte do charme de Geoff. As mulheres tambm costumavam admirar seus um metro e oitenta de altura, os ombros largos, os penetrantes olhos castanhos e os cabelos da mesma cor, permeado por alguns fios dourados.
Todavia, minutos depois de conhec-lo, as mulheres notavam algo mais. Mesmo em momentos de maior reserva, Geoff exalava um inquietante sex appeal. Era como se fizesse parte da personalidade dele. O olhar penetrante, o sorriso envolvente...
Sem querer, Marion lembrou de Tiffany Taylor, a advogada da Seatham que vinha acompanhando o trabalho de Geoff desde fevereiro. Ela servira como uma espcie de vnculo entre a empresa e ele.
Os longos cabelos negros, os olhos verdes e o corpo perfeito faziam Marion lembrar de tudo que faltava nela prpria. Alm de bonita, Tiffany tambm era dinmica e inteligente.
Marion ficou aliviada ao notar que ela no estava por perto. No sabia se conseguiria ter de encarar Tiffany tambm.
	Podemos comear a reunio? - disse o presidente da mesa, tomando seu lugar.
A Seatham era a primeira pauta da noite. Alis, ultimamente isso vinha, ocorrendo com frequncia.
Os representantes da firma de desenvolvimento haviam comeado a rondar Eternidade desde o ano anterior. Ningum parecera notar at o ltimo ms de janeiro, quando, para espanto de todos, a famlia Borden divulgara a aceitao da compra de sua propriedade pela empresa Seatham. Tratava-se de uma fazenda de duzentos e sessenta acres, perto de Eternidade.
Marion ficara chocada com a interveno da empresa, porm, no mais do que quando Geoff anunciara sua contratao como advogado oficial da Seatham, em Eternidade. Ela sentira-se indignada no apenas pelo fato de ele haver passado para o lado do inimigo, mas tambm por nem sequer hav-la consultado.
Dali a duas semanas, os cidados de Eternidade se reuniriam no auditrio do colgio para votar se queriam ou no as mudanas propostas pela Seatham. A votao seria decisiva para a permanncia da empresa na cidade.
Geoff aproximou-se da mesa e apresentou o relatrio revisado.
	Notaro que as mudanas obedeceram s objees feitas na ltima reunio.
Atrs dele, ouviram-se alguns risinhos de deboche. Pessoas que sabiam exatamente de onde as reclamaes tinham vindo.
Marion, contudo, no achava a rivalidade nem um pouco engraada. Sua voz saiu muito fria ao dizer:
Podemos ver uma cpia, por favor?
Sabia que Geoff tambm no estava se divertindo com a situao.
	Claro  respondeu ele.
Marion notou a impacincia na voz dele, assim como o perigoso brilho nos olhos castanhos.
Ela abriu a cpia do relatrio sobre o colo e tentou se concentrar. Todavia, s conseguia pensar no anel de casamento que acabara de ver no dedo de Geoff.
Um de seus colegas fez uma pergunta, forando sua mente a voltar ao presente. Mais uma vez, a Seatham encontrou objees pela frente.
Depois de alguns minutos de discusso, a reunio foi encerrada. Marion ficou de p, disposta a lembrar Geoff de que se veriam em casa, todavia ele j se dirigia  sada com seus costumeiros passos firmes.
O centro comercial de Eternidade ficava prximo ao rio Sussex. Marion morara perto do centro durante toda sua vida. Mesmo agora, para voltar para casa precisava apenas descer a Bridge Street, cruzar o rio e virar na Water Street. A casa precisava de reforma quando ela e Geoff a compraram, mas Marion logo vira o potencial que existia nela. Atualmente, a construo era uma das mais bonitas da regio. Entretanto, ao chegar da reunio, Marion no se deparou com a atmosfera de paz que costumava encontrar em sua casa. Foi direto ao escritrio, para tentar se livrar da frustrao.
O carro de Geoff parou diante da casa quinze minutos depois. Marion ouviu quando ele abriu a porta, depois os passos pela cozinha. Sons to familiares quanto sua prpria casa.
Quando os passos de Geoff se aproximaram da porta do escritrio, Marion sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Uma coisa era encar-lo em uma sala de reunies, mas outra muito diferente era t-lo em casa novamente. Levantou a vista devagar.
	Oi, Marion.
Ela assentiu.
	A reunio de hoje foi curta  comentou.
	Sim. Mas ainda assim voc conseguiu torn-la interessante.
Geoff falava num tom frio, quase cido. Marion limitou-se a balanar a cabea. No queria comear uma discusso sobre os direitos da Seatham.
Ele entrou no aposento e foi at a parede de vidro com vista para o rio, alm do jardim. Os dois haviam mandado fazer vrias paredes assim, para Marion observar os filhos brincando enquanto estivesse trabalhando. Agora ela dizia s pessoas que era apenas para ter uma bela vista do jardim.
Geoff virou-se, sentando em uma poltrona.
	No pare de trabalhar por minha causa  disse ele.
	O que o faz pensar que eu pararia?
	Absolutamente nada, Marion.
Ela tambm no queria discutir sobre trabalho. Geoff no entendia! Desenhar jias sempre fora uma diverso para ela. Nos ltimos anos, tornara-se uma espcie de fuga, quando Geoff fora mostrando cada vez menos interesse por ela.
	Desculpe  disse.  Veio conversar sobre o casamento de Robyn.
Geoff arqueou as sobrancelhas. Estaria surpreso com o pedido de desculpas? S ento Marion notou as olheiras no rosto dele.
	Sim  ele confirmou.  E tambm para pegar o resto das minhas roupas.  Voltou a ficar de p.  Importa-se de conversarmos enquanto arrumo a mala?
Notando o quanto ele estava ansioso para ir embora, Marion sentiu um aperto absurdo no peito. Em silncio, seguiu-o at o andar de cima.
Encostada ao umbral da porta, observou Geoff comear a arrumar a mala.
	Fale-me sobre o casamento de Robyn e Nate  disse ele.
	No h muito mais a dizer  respondeu Marion. Eles fazem questo de casar na capela, esto com quatro semanas de prazo e ns fomos convidados para sermos padrinhos. Oh, e eu concordei em organizar o casamento e desenhar as alianas  acrescentou.
Geoff no disse nada, mas arqueou uma sobrancelha. Marion imaginou se ele estaria pensando que ela aceitara incumbncias demais. Ela prpria andara se fazendo a mesma pergunta.
	Ento quando dir a Robyn que no poderei comparecer ao casamento?  Geoff quis saber.
	No sei  Marion deu de ombros.
	Pois acho melhor fazer isso logo, Marion. No estou com disposio para comparecer a nenhum casamento no momento. Alm disso, Robyn e Nate precisaro providenciar outras coisas  acrescentou, guardando dois ternos na mala.
	Sei disso. O problema  que no sei como dizer a Robyn, Geoff. Se visse o quanto ela est feliz, voc entenderia.
Geoff voltou ao guarda-roupa, franzindo o cenho ao retirar algumas camisas. Por fim, parou com olhar vago, apoiando a mo sobre uma prateleira.
	E difcil de acreditar, no? Robyn se casando...
	Eu sei.  Marion entrou no quarto, hesitante.  Ela ainda era uma menina quando ns dois comeamos a namorar.
Geoff assentiu, quase sorrindo. As linhas em torno dos olhos dele chamaram a ateno de Marion. Elas no existiam doze anos antes.
	Ela costumava me seguir para todo lugar  comentou Geoff.
Claro que Robyn o seguia, pensou Marion, sentando-se em uma cadeira. Sua irm sempre adorara Geoff. Ele tirou as camisas do cabide e voltou para a cama.
	Voc era muito atencioso com ela  comentou Marion.
 Principalmente com relao aos problemas que ela enfrentou na adolescncia. As vezes era at protetor demais.
	Bem, nunca tive uma irmzinha caula.
Geoff foi pegar os sapatos. Ele nunca tivera irmos. Porm, no costumava falar sobre a solido da infncia e adolescncia, por isso Marion no insistiu no assunto.
	Ela ainda sente um afeto especial por voc. Por ns dois, na verdade.  Marion inclinou a cabea para trs, com ar cansado.  No pode imaginar o quanto ser difcil para mim contar a verdade a ela Robyn est nas nuvens; a notcia arrasar no apenas a felicidade dela, mas tambm o casamento.
Os movimentos de Geoff tornaram-se mais lentos. Marion percebeu que ele tambm considerava as implicaes do fato. De sbito, deixou os sapatos no cho e sentou na cama, pensativo.
	Eu no havia pensado nisso.
	Ser horrvel, Geoff. Os parentes daro os parabns a ela e mostraro solidariedade com relao a mim logo em seguida. Nossa separao transformar o casamento dela em um fiasco. E meus pais...
Geoff desviou a vista, srio. Ele nunca tivera muita intimidade com os prprios pais, mesmo antes do divrcio dos dois. Infelizes demais no casamento, no tinham muito tempo para dar ateno a ele. Unir-se  famlia de Marion, segundo ele mesmo dissera certa vez, fora a segunda melhor coisa da vida dele, depois de conhec-la.
	Realmente no sei o que fazer. Quero que o casamento da minha irm seja o mais lindo possvel. Um dia para ser lembrado com saudade, e no uma associao conosco.  Levantou a vista para ele:  Tem alguma sugesto quanto a isso? Preciso de sua ajuda, Geoff.
Ele coou o queixo.
	Que tal...  hesitou.  Que tal no dizermos nada a ela?
Olhou para Marion, mas logo desviou a vista.
	Sobre o que est falando?
	Bem, pelo bem de Robyn e Nate, talvez... talvez seja melhor mantermos nossos problemas em segredo e fingirmos que ainda estamos juntos. Somente at o casamento acrescentou rpido.
Marion sorriu, nervosa.
	S pode estar brincando.
Geoff fez que no.
	Mas isso  loucura!  ela protestou.  No dar certo.
	Por que no? A nica pessoa para quem contei foi Graham.
	No contou para Freddie?

	Claro que no. E a nica razo que me levou a contar a Graham foi achar que ele merecia uma explicao quando
bati  porta dele, depois que voc me colocou para fora.
	No o expulsei de casa  Marion contestou.  Ambos concordamos que seria melhor se...
	Concordamos? Voc jogou minha pasta escada abaixo e me disse para nunca mais...
	Chega!  Marion tapou os ouvidos com as mos. No queria ouvir novamente o que dissera naquela noite.  No veio aqui para desenterrarmos a discusso da semana passada.
Geoff resmungou algo incompreensvel, voltando a se ocupar com a mala. Marion notou que ele ainda estava bravo com o que acontecera.
Passados alguns segundos, a curiosidade levou-a a perguntar Est na casa de Graham?
	Onde esperava que eu estivesse?
	Confesso que estou surpresa por voc no ter ido direto morar com Tiffany.
Geoff fechou a porta do guarda-roupa com tanta fora que o barulho assustou Marion.
	Pensei que preferia no desenterrar a discusso da semana passada  argumentou ele.
Embora sua voz estivesse controlada, seus olhos brilhavam de fria. Marion arrependeu-se do que dissera.
	Tem razo  respondeu.  Desculpe. Estvamos nos entendendo quando falvamos sobre Robyn, mas...
	Ento vamos continuar falando sobre ela  Geoff interviu.   nela que devemos nos concentrar no momento.
	Sim, claro. Ento, onde estvamos?
	Discutindo para quem contamos sobre nossa separao. Contei apenas a Graham, e voc?
	Apenas a Bronwyn.
	Bem, a est. Duas pessoas apenas. Parece-me que no ser difcil manter nosso problema em segredo.
Pegou a mala e saiu do quarto.
	Discordo  disse Marion, seguindo-o pelo corredor.
	Por qu?
Marion respirou fundo.
	Acha mesmo que ningum mais notou? Quero dizer, seu carro no est aqui h uma semana. Voc vestiu apenas um terno durante esse tempo. As pessoas no so cegas, Geoff. Se no sabem, pelo menos suspeitam. Venho recebendo olhares estranhos ultimamente. Quando o casamento for realizado, toda a cidade j ter notado. A notcia poder chegar aos ouvidos da minha irm.
Geoff olhou para o alto.
Por mais que eu queira discordar, no posso  observou ele.  Voc tem razo.
Comearam a descer a escada.
	E o problema no diz respeito apenas s pessoas da cidade  disse Marion.  Meus pais chegaro na vspera do casamento e talvez fiquem at algum tempo depois. Com certeza notaro diferenas, como o fato de suas coisas no estarem aqui. No haver como fingir que ainda estamos juntos.
Geoff parou, voltando-se para ela:
	A menos,  claro...
	O qu?  Marion insistiu.
	A menos que estejamos realmente juntos.
Marion engoliu seco. O olhar de ambos se encontrou, mantendo-se assim durante vrios segundos.
	No me entenda mal  Geoff acrescentou, por fim.
 O que estou querendo dizer  que eu poderia voltar para casa at o casamento, pelo menos.
	Claro. No imaginei que voc estivesse querendo sugerir outra coisa.
	Temos muito espao por aqui  Geoff continuou.  Portanto, no teremos que dorm...  interrompeu-se. No atrapalharemos um ao outro. No precisaremos nem conversar se voc no quiser.
Marion assentiu, pensando na ironia da situao. Haviam comprado a casa pensando em ench-la de filhos, risos e alegria. Todavia, agora Geoff propunha que usassem o espao extra justamente para garantir a distncia e o silncio entre eles.
	Ento, o que me diz, Marion? Devo voltar para c?
	No. Isso  loucura, Geoff.
Continuou descendo a escada com cuidado para no esbarrar nele.
	Por qu?  Geoff insistiu.  Voc pediu minha opinio
e essa  a nica soluo que me ocorreu. Pense bem, Marion.
 Depositou a mala diante da porta.  Ambos queremos que Robyn e Nate sejam felizes e tenham um bonito casamento.
Nenhum de ns quer preocupar seus pais. Se realmente no quiser aceitar miiiha ideia, no me importo se preferir chamar outra pessoa para ocupar meu lugar como padrinho.
Marion tinha inteno de rejeitar a ideia. Porm, Geoff fitou-a nos olhos e fez a pior coisa possvel: sorriu. Ela sempre se derretia toda quando ele sorria.
	Vamos l, Marion. Aceite.
Ela engoliu seco.
	Pelo bem de Robyn  Geoff persistiu.
	Oh, est bem!  Ela ergueu as mos num gesto de rendio.  Ok, eu aceito!
Geoff exalou um suspiro.
	Otimo. Ento irei pegar minhas coisas na casa de Graham e voltarei dentro de... duas horas.
Duas horas?, pensou Marion. Ir at a casa de Graham, buscar as roupas, no demoraria mais do que meia hora. Ela estreitou o olhar. Quem mais Geoff iria ver nesse meio tempo?
	No vou esper-lo acordada  avisou.
Ele sorriu com ironia.
	Como  bom estar de volta ao lar.
Depois que Geoff foi embora, Marion levou a mala dele para um dos quartos de hspede. Sentia a apreenso aumentar cada vez mais. Tinha a impresso de que tomara a deciso errada.
Levando em conta o quanto Geoff a magoara, como podia permitir que ele voltasse para casa? Por que colocar-se em um posio na qual teria de v-lo todos os dias e lembrar de que ele estava envolvido com outra mulher? Uma separao definitiva seria bem mais fcil. Mas. e quanto ao casamento de Robyn? Faria qualquer coisa pelo bem de sua irm.
Entretanto, com tanta mgoa entre ela e Geoff, seria quase impossvel fingir que ainda formavam um casal apaixonado.
O mais perturbador de tudo era que, apesar de haver passado a ltima semana dizendo a si mesma que no queria mais saber de Geoff, no ntimo ela no via a hora de t-lo novamente em casa.
De uma coisa, porm, ela tinha certeza: as prximas quatro semanas seriam as mais difceis de sua vida.

CAPITULO III

Geoff recuou um pouco, ergueu a raquete e ' acertou a bola com tanta fora que o barulho ecoou pela quadra. A bola colidiu com a parede esquerda e passou direto pela raquete que Graham acabara de erguer.
	Ora, seu filho...  Graham Reed praguejou.  Essa  apenas uma partida de raquetebol, meu velho, e no uma questo de vida ou morte.
	Ponto para mim  disse Geoff.  Nove a quatro.
Estavam na terceira partida noite. Apesar do desgaste fsico, Geoff ainda estava tenso. Encontrava-se a caminho da terceira vitria, mas no se sentia satisfeito.
Posicionou-se para receber a bola que Graham lanara. Acertou-a com fora mais uma vez, imaginando que ela continha todas as frustraes que ele vinha tentando esquecer nas ltimas semanas, ou meses, talvez.
	Dez a quatro  resmungou Graham num tom de inevitvel derrota. Enxugou a testa com a munhequeira, afastando os cabelos suados.  O que Marion e o Espao Aberto aprontaram dessa vez?
Geoff bebia um gole de gua quando a pergunta o pegou de surpresa, fazendo-o tossir.
	Nada  respondeu.
	Ok. Ento o que ela fez para deix-lo to perturbado?
	Por que voc acha que todas as minhas mudanas de humor giram em torno de Marion?  Geoff indignou-se,
deixando a garrafa de gua de lado.
	Porque essa  a verdade. Sempre foi. E agora que vocs se encontram de lados opostos no acordo sobre a Fazenda Borden, est ainda pior. De certa forma, no deixa de ser engraado. Bem, pelo menos para algumas pessoas.
	O que  engraado?  Geoff indagou, voltando a bater na bola.
	Voc e Marion se digladiando, como naquelas velhas comdias romnticas. Spender Tracy e Katharine Hepburn, Cary Grant e Doris Day...
	Acredite-me, a situao no se torna nem um pouco engraada quando voc es-t envolvido nela.
Geoff acertou a bola, ganhando mais um ponto facilmente. Ele e Graham eram amigos h doze anos, desde que Geoff se mudara para Eternidade com seu pai, recm-divorciado. Cursava o terceiro ano da faculdade e no se considerava imaturo ou dependente h muito tempo. Naquele vero, entretanto, sentira-se estranhamente solitrio.
Seu pai tinha alguns parentes distantes na cidade, mas Geoff sentia como se no tivesse ningum. Tentara se convencer de que isso no importava, mas no obteve muito xito.
Certa manh, estava a caminho da faculdade quando vira um rapaz ruivo chutando latas, sozinho. Fora ento que travara o primeiro contato com aquele que se tornaria seu melhor amigo.
Na semana seguinte, a vida tornara-se mais animada para ambos. Geoff nunca mais pensara em sair de Eternidade, desde ento. Conhecera Marion pouco depois. Na poca ela j trabalhava na joalheria dos pais, na mesma rua da lanchonete onde ele arrumara emprego.
Assim que ela entrara para fazer um pedido de almoo para os pais, Geoff apaixonara-se completamente. De fato, ele derrubara uma carteia inteira de ovos, quando o olhar de ambos se encontrara.
Para ele, Marion era a garota mais bonita do mundo. Uma princesa de cabelos dourados de quem ele queria ser prncipe pelo resto da vida...
De sbito, a voz de Graham trouxe-o de volta  realidade:
	Pensei que voc ficaria contente com o fato de se mudar essa noite.
	Como eu j disse, minha mudana no significa nada.
Pode tirar qualquer ideia de reconciliao da mente.
	Sim, ouvi bem o que voc disse. Vai apenas voltar para casa pelo bem da irm dela.
	Isso mesmo  Geoff confirmou. Esperou que Graham se posicionasse para recomearem o jogo.  E Marion aceitou pela mesma razo.
Dessa vez Graham marcou o ponto com facilidade. Ento ergueu os braos e fez uma espcie de dana da vitria.
	Marion e eu estamos apenas adiando o inevitvel. No estou disposto a esquecer que ela me deu o fora. Assim que o casamento de Robyn for realizado, Marion vai querer que eu saia. No ficaria surpreso se encontrasse minhas malas me esperando na sada, antes mesmo de tirar o terno do casamento.
Os dois continuaram o jogo. Por alguns minutos, Graham recuperou pontos, mas Geoff ganhou no final. Deitaram no cho, exaustos.
	Mais uma partida?  Graham props.
Geoff apenas balanou a cabea para os lados.
	S mais uma coisa  disse ele, depois de alguns segundos.  Toda essa conversa sobre a separao e o fato da minha volta para casa ser apenas fingimento, tudo isso  segredo, ok?
Graham olhou-o, franzindo o cenho.
	Sim, entendo. No tinha mesmo inteno de comentar isso com ningum. Ambos respeitamos nossas privacidades sobre certos assuntos...
	Sempre admirei isso em voc  disse Geoff.  Apareci na sua casa na semana passada, pedi para ficar porque eu e Marion estvamos tendo problemas, e voc aceitou sem fazer perguntas.
	Sei que voc faria o mesmo por mim. Porm, nem sempre bater em uma bola resolve nossos problemas, meu velho.
Geoff assentiu em silncio, pensando que deveria haver mais problemas do que Graham imaginava. Mas como explicaria at mesmo para seu melhor amigo que comeara a sentir-se desnecessrio na vida de sua esposa? Nos ltimos anos, Marion dedicara-se tanto quelas malditas jias que no restara lugar para mais nada na vida dela. Ele no entendia muito do ramo, por isso nunca sabia as palavras certas para elogiar os trabalhos que ela realizava.
Porm, o que mais o aborreceu foram as pessoas que comearam a entrar na vida de Marion e que falavam a mesma linguagem que ela. No podia negar que Marion era uma mulher de talento. s vezes pensava at onde ela poderia ter ido, se houvesse se dedicado  carreira mesmo depois de casada. Porm, ela preferira continuar na loja dos pais, para ajud-lo a terminar a faculdade de advocacia. Desenhava nas horas livres, durante a noite ou nos fins de semana.
Deus, ela nem mesmo terminara a faculdade. Estavam to ansiosos para ficar juntos que, faltando apenas um ano para terminar a Escola de Arte de Rhode Island, ela preferira desistir do curso para se casar com ele.
Depois de alguns anos, contudo, Marion pareceu querer recuperar o tempo perdido, dedicando-se quase integralmente ao desenho de jias. Geoff no tinha dvidas de que ela usara o incidente com Tiffany apenas como uma desculpa para se livrar dele e do casamento.
Ainda faltava uns cinco minutos para o fim do tempo de jogo, mas Graham ficou de p e se encaminhou para a porta. Geoff o seguiu, carregando a toalha e a garrafa de gua.
Vinte minutos depois, sentaram na lanchonete do clube. Burburinhos de conversas e msica New Age preenchiam o ambiente. Geoff pediu um sanduche leve, fritas e uma soda diet. Graham preferiu uma pequena poro de petiscos.
	J so quase dez horas, companheiro  disse ele. No tem mais hora certa para comer?
	Seis, dez horas, que diferena faz, desde que eu coma?
	Puxa, ainda bem que est voltando para casa.  Graham balanou a cabea.  Ento, j se acalmou o suficiente para falar sobre o assunto?
	Creio que sim  Geoff sorriu.  Marion e eu no vnhamos convivendo bem nos ltimos meses, principalmente por causa desse acordo da Seatham. Porm, o que nos separou foi algo que eu nunca esperava acontecer.
	Tiffany Taylor?
	Ahn? Como soube?
	Posso parecer um dentista maluco, mas tambm sou um especialista em assuntos do corao, principalmente os femininos. A tal Tiffany sempre me pareceu muito interessada em voc. Imaginei que vocs dois trabalhando juntos acabaria em problemas.
Os pedidos foram servidos, mas Geoff apenas olhou para o prato.
	No, no foi assim. Bem, quando comeamos a trabalhar, tive a impresso de que Tiffany no se oporia se eu quisesse me envolver com ela. Porm, deixei muito claro que no estava interessado. Depois disso, nunca mais tive problemas com ela. Nenhum. Contudo, naquela noite... foi estranho.  Franziu o cenho, mordendo um pedao do sanduche.  Eu e Tiff havamos trabalhado no meu escritrio.
J era tarde, mas no muito. Estvamos quase saindo quando, por um motivo que no consigo lembrar direito, ela me pediu para esclarecer uma ideia que eu havia desenvolvido no dia anterior. Ento, quando eu expliquei, ela disse algo como: "Oh, claro! E perfeito!" e circundou os braos em torno de mim. Foi um abrao, nada mais. E um beijo, no canto da minha boca, entende? No nos lbios. A reao me surpreendeu porque no imaginei que a sugesto que eu havia feito fosse deix-la to empolgada, Ento fiquei realmente espantado quando vi Marion  porta. Estava to furiosa que parecia prestes a atirar em ns dois.
Graham suspirou.
	Deve ter sido terrvel para ela  comentou.
	Eu sei. Ela pediu desculpas vrias vezes...
	No estou falando de Tiffany  replicou Graham, incrdulo.  Referi-me  sua esposa. Deparar-se com uma cena dessas...  balanou a cabea.
	No foi "uma cena dessas"  Geoff contestou.  Tudo aconteceu na mais perfeita inocncia, mas antes que pudssemos explicar qualquer coisa a Marion, ela partiu.
	Espero que a tenha seguido, pelo menos.
	Claro que segui. Notei que ela havia entendido mal...
	Havia mesmo?  Graham insinuou.
	O que est querendo dizer?
	Bem, tem certeza de que ela no viu exatamente o que Tiffany queria que ela visse?
	Tem uma mente muito desconfiada, Reed.
	 Talvez. Mas desde a primeira vez em que a vi, achei Tiffany perigosa de alguma maneira.
 Voc entendeu tudo errado. Foi Marion quem fez tempestade num copo d'gua.  Geoff suspirou, frustrado.  Tentei explicar que no acontecera nada, mas ela no quis ouvir. Depois de tudo que j havamos vivido, eu esperava pelo menos que ela tivesse mais confiana em mim. Mas a verdade  que ela no quis me ouvir. Viu Tiffany como um pretexto para acabar com nosso casamento.
Graham pareceu ctico.
	Tem mesmo certeza disso?
	Sim. O comportamento dela no se explicaria de outra maneira. Toda essa insistncia no fato de que eu estava tendo um caso com Tiff  muito estranha... Voc sabe que para mim ela  apenas uma boa advogada, nada mais.
	E muito bonita tambm, Geoff Graham acrescentou.
	Ok, ela . Mas existe um nmero infinito de mulheres bonitas no mundo. Desde a primeira vez em que vi Marion, foi como se todas as outras mulheres se tornassem uma s. Para mim, pouco importava que fossem ou no bonitas. Marion foi a nica que eu sempre quis.
	Mesmo agora?
Geoff mordeu o sanduche mais uma vez.
	Mesmo agora?  Graham insistiu.
	Marion parece no me querer mais. Ela tem a loja e as jias, novos amigos e reunies constantes. Portanto, o que eu quero ou no, pouco importa para ela.
Graham deve ter notado a alterao na voz de Geoff. Comendo um petisco, virou-se para a tev da lanchonete e disse:
	Esse time, Red Sox, est jogando cada vez melhor, no?
O primeiro pensamento que ocorreu a Marion quando ela abriu os olhos, na manh seguinte, foi Geoff. Estaria ele ainda em casa? Onde? Poderia continuar com sua rotina sem se deparar com ele?
Olhou para o relgio, aps sentar na cama. Deus, j eram nove e quinze! Costumava comear a trabalhar no escritrio s oito. Todavia, no dormira muito bem na noite anterior.
Tratara de j estar na cama quando Geoff chegasse. No queria voltar a v-lo, depois de ele haver passado a noite com Tiffany. Ouvira quando ele entrara pela cozinha e fora para o escritrio.
Pouco tempo depois, os passos firmes soaram na escada. Marion ficara bem quieta, apenas ouvindo. Tornara-se tensa de repente. Em vez de seguir pelo corredor, os passos dele pararam bem diante da sua porta. Por um instante, Marion parara de respirar.
Em seguida, Geoff se encaminhara para o quarto de hspedes. Porm, o sono custara a chegar para Marion.
Voltando os pensamentos ao presente, ela saiu da cama e andou na ponta dos ps at o quarto que ele ocupara. Empurrou a porta devagar. A cama estava impecvel. Atravessando o quarto, olhou pela janela o lugar onde ele costumava deixar o carro. Geoff no estava em casa.
Respirou, aliviada. Disse a si mesma que isso era absurdo. Haviam dividido a mesma casa durante dez anos. Por que essa tenso agora? Por que essa sensao de estar pisando em ovos?
No fundo, sabia a resposta. As coisas no eram mais as mesmas de dez anos, cinco ou at mesmo duas semanas antes.
Ela e Geoff estavam vivendo uma nova situao. Juntos e separados ao mesmo tempo. E ela no tinha certeza de quais eram as regras.
A camisa que ele usara no dia anterior estava pendurada no cabide ao lado da cama. Marion olhou-a por um momento. Pegou-a com dedos trmulos, com inteno de lev-la para a lavanderia. Devagar, encostou o tecido junto ao rosto. O perfume do sabonete ainda estava impregnado no algodo. Marion fechou os olhos, identificando tambm o inconfundvel cheiro da pele de Geoff.
De sbito, pareceu despertar e soltou a camisa. Com certeza o perfume de Tiffany tambm estava misturado a esses odores.
Precisava se concentrar no casamento de Robyn nesse dia, pelo menos durante algumas horas. Tratou logo de sair do quarto, fechando a porta com firmeza atrs de si. Foi direto para o chuveiro.
Uma hora depois, Marion chegou  propriedade Powell, ansiosa para reservar uma data para o casamento de sua irm. Encontrou Bronwyn no Museu Powell. Ela estava ajoelhada no carpete do escritrio, segurando um pergaminho aberto, uma das vrias peas espalhadas pelo aposento. O sol que entrava pela janela, tornava quase brancos os cabelos muito loiros de Bronwyn.
	Est parecendo uma manh de Natal por aqui.
Bronwyn levantou a vista e sorriu.
	Marion! Oi!
Levantou uma delicada pea de porcelana, uma das ltimas aquisies do museu.
	Mais porcelana Trade?
	Hum-hum. No  linda? Sente.  Bronwyn colocou a pea de volta na caixa e sentou-se mais confortavelmente sobre o tapete.  O que a trouxe aqui a essa hora do dia?
	Pronta para a novidade? Robyn e Nate vo se casar.
Bronwyn espantou-se.
	Sua irmzinha?
	Minha reao tambm foi essa.
	Quando? Me d todos os detalhes.

	Ainda no h detalhes. Tudo depender do fato de conseguirmos reservar uma data com voc.
	Bem, claro que poderemos reservar uma data. Que ms?
	Esse ms  Marion riu.
	Esse ms?
	Bem, daqui a quatro semanas, para ser mais exata. Julho, na verdade.
	Est brincando, no ?
	Gostaria de estar.
Nos minutos seguintes, Marion explicou os detalhes da situao. Antes que ela terminasse, porm, Bronwyn j balanava a cabea.
	Mesmo sem olhar no calendrio, sei que esse fim de semana j est completo. Tem certeza de que eles no podem marcar para o fim de semana seguinte?
	Tenho. A essa altura, Nate j ter sido transferido.
	Bem, vamos ver o que eu tenho.  Bronwyn ficou de p..  O detalhe mais difcil nessa data ser encontrar um lugar para a recepo.
Pegou a agenda sobre a mesa.
A casa no est disponvel?  Marion indagou, referindo-se  manso Powell.
As tias de Bronwyn, donas da propriedade, recentemente haviam se incorporado a Casamentos, Ltda., e comeado a oferecer os lindos jardins da manso para recepes.
	Nenhuma chance de estar  respondeu Bronwyn.  Temos reservas at setembro.  Abriu o livro.  Presumo que vocs prefiram o sbado?
	Sim. Voc sabe o quanto as cerimnias realizadas nas sextas e domingos so difceis para os convidados que precisam viajar. Alm disso, no que diz respeito a casamentos, sou tradicionalista. Minha nossa! Voc tem duas cerimnias na sexta  noite. Eu no poderia reservar um horrio nem que quisesse.
	E d uma olhada no sbado. Cinco casamentos, Marion.
	Cinco?
	Hum-hum. Dez horas, onze, doze, uma e duas. O das duas horas realizar a recepo aqui. Por isso coloquei-a como a ltima cerimnia do dia. Recuso-me a oficializar um casamento com msica e vozerio ao fundo.
	Hmm. E nove da manh  cedo demais. Oh, Bron! O que vou fazer?
Bronwyn virou uma pgina.
	Aha!
	Aha, o qu?
	Que tal uma semana antes?
	Quer dizer daqui a trs semanas?
- Sim. No ltimo sbado de junho tenho uma vaga ao meio-dia e outra s duas.
	Trs semanas?  Marion repetiu, incrdula.
	Hum-hum.
	Como diabos poderei organizar um casamento em trs semanas?
	Da mesma maneira que voc organizaria no prazo de quatro. Os dois perodos so quase impossveis. Todavia, foram situaes como essa que nos levaram a criar a Casamentos, Ltda., lembra?
Marion gemeu, levando uma mo ao estmago.
	Eu no queria toda essa correria.
As duas ficaram olhando para a agenda durante um bom tempo. Por fim, Marion suspirou.
	Vamos ligar para Robyn e ver o que ela acha.
Claro que Robyn achou a data maravilhosa. Completamente apaixonada, tudo para ela era fantstico nos ltimos dias. Quando Marion desligou o telefone, riu consigo mesma.
	Conseguiu acompanhar a conversa?
	Sim  respondeu Bronwyn.  Pelo que entendi, Robyn prefere o horrio das duas. Ela j comprou os convites?
	Sim. Comprou um modelo simples, daqueles com os espaos em branco para preencher. Disse que estaro no correio amanh.
	Muitos convidados?
	Entre cinquenta e sessenta. Ela tambm me pediu para verificar os locais disponveis para a recepo. Ligou para nossos pais ontem  noite e eles disseram para providenciarmos o casamento mais bonito dos ltimos tempos.
Bronwyn colocou uma pilha de revistas de arte de lado e sentou  mesa.
	Lembro que eles disseram o mesmo quanto ao seu comentou ela.  Foi uma festa e tanto.
	Sim, mas tivemos quase um ano para organizar tudo.
Seguiu-se um silncio embaraoso.
	As coisas melhoraram entre voc e Geoff?  indagou Bronwyn com ar preocupado.
O estmago de Marion se contraiu.
	Bem, ele... voltou para casa.
Bronwyn inclinou-se para a frente com expresso de triunfo.
	Eu sabia! Tinha certeza de que vocs acabariam voltando.
	No, no  nada disso. Ser apenas at o casamento de Robyn. Geoff e eu achamos que ser melhor no perturbar meus pais nem estragar o dia dos noivos com nossos problemas. Esperarei at algum tempo depois para contar a eles. At l, Geoff j ter ido embora.
Bronwyn no pareceu muito convencida.
	No importa o que diga, vocs dois ainda voltaro a ficar juntos.
Marion olhou-a, incrdula. Ser que Bronwyn no ouvira nada?
	Voc casou na Capela de Eternidade  Bronwyn lembrou.  Ou esqueceu esse detalhe?
Marion observou o sorriso da amiga, tornando-se trmula de repente.
	J estou cheia dessa tal lenda  replicou.  Se fosse possvel, gostaria de nunca mais ouvir falar nisso.
	Mas...
	Sem mas, Bron. Alm de Geoff, voc  a pessoa mais esclarecida e inteligente que conheo, porm nesse assunto
sempre se deixou iludir. Quando se trata da capela, voc se torna to... irracional que me deixa chocada.  Ficou de p e comeou a andar de um lado para outro.  Bron, pense um pouco. Use o raciocnio. H quanto tempo as pessoas vm casar nessa capela?
	Oh, mais de cem anos.
	Certo. E em todo esse tempo, acredita mesmo que nenhum desses casamentos foi infeliz ou se desfez?
Bronwyn abriu os lbios, mas pareceu aturdida demais para falar.
	Recuso-me a acreditar que eu e Geoff sejamos os primeiros.
Marion se recusava a arcar com a responsabilidade. Era peso demais para um s ser humano.
- Minha convico sobre voc e Geoff no se baseia apenas na lenda, Marion. Nunca conheci duas pessoas to perfeitas uma para a outra.
Marion olhou para fora da janela.
	Eu tambm pensava assim  asseverou.
	No acredito que ainda esteja preocupada com a tal...Tiffany.
	Acontece que a tal Tiffany tambm  advogada, Bron.
Inteligente, bonita e louca pelo meu marido.
	Ela no tem nada mais do que unhas manicuradas, cabelos cheios de spray e um tailleur de quinhentos dlares.
Geoff nunca se interessaria por um tipo assim. Ele sempre foi completamente apaixonado por voc.
	Sim, claro  Marion resmungou, voltando a olhar para fora da janela.
Bronwyn ficou em silncio durante alguns segundos.
	Ouvi tudo que me disse, mas ainda no entendo como voc chegou  brilhante concluso de que Geoff est tendo um caso.
Marion deu de ombros.
	Uma esposa sabe.
	Como? Precisa ser mais especfica.
Marion suspirou. No sabia se conseguiria isso; suas suspeitas eram vagas demais. Ainda assim, juntando-se umas s outras, pareciam formar uma montanha de evidncias.
	Est vendo?  Bronwyn prosseguiu.  Sabia que no conseguiria encontrar nenhuma prova concreta se realmente pensasse no assunto.
Marion estava perdendo a pacincia.
	Pelo amor de Deus, Bronwyn! Acorde! Aqueles dois esto sempre juntos. Chegaram at a viajar!
	Ainda assim no acredito. Geoff no faria isso.
Marion desistiu. Aps um longo suspiro, explicou:
	No aconteceu de repente, Bron. Nosso casamento no anda bem h dois anos. A separao acabou sendo inevitvel.
Somos muito diferentes.
	Diferentes? No sei se estou entendendo. Certo, vocs trabalham em ramos diferentes, mas que importncia tem isso?
	Ora, claro que importa  Marion argumentou.  Nosso trabalho  o reflexo daquilo que somos. Afeta as pessoas com as quais nos relacionamos e at a roupa que vestimos.
	Marion, no acha que est dando importncia demais ao trabalho?
	No! O que estou tentando dizer  que nosso trabalho  um alimento para nossa personalidade, e nesse ponto ele  extremamente importante. Por exemplo, sempre preferi trabalhar por conta prpria. Prefiro lidar com coisas, em vez de pessoas. Metais, ferramentas, flores... Sempre me dei melhor com isso.
	E da?
	Da que Geoff  justamente o contrrio. Ele adora lidar com pessoas. Elas se sentem naturalmente atradas por ele e eu...  Hesitou, abrindo as mos com ar de inu
tilidade.  No consigo ficar  altura dele. No consigo.  Voltou-se para a janela, tentando conter as lgrimas. No perteno mais  vida de Geoff. Acho que nunca pertenci.
Tolice! Essas diferenas sempre existiram, mas nunca impediram vocs dois de se amarem. Quero dizer que vocs eram to ligados que ningum conseguiria abalar a estrutura do casamento. Um costumava at terminar frases pelo outro!  Bronwyn riu.
Marion franziu o cenho.
	Apenas atrao fsica, nada mais  disse ela.  Hormnios. Mal havamos sado da adolescncia quando nos casamos. O que sabamos? Durante algum tempo, mantivemos nossas individualidades adormecidas, mas com o passar do tempo...  Abaixou a vista.  Tudo que sei  que um dia acordei e me dei conta de que Geoff estava passando pouco tempo comigo e muito com outras pessoas. Acho que
ele chegou a um ponto de no poder mais ignorar nossas diferenas, preferindo lidar com pessoas do nvel dele, que no o aborrecessem.
	Tiffany, por exemplo?
	Sim.
	Desculpe, Marion, mas ainda no estou pronta para engolir isso.
Marion notou que no estava chegando a lugar algum.
	Por que insiste nisso?  impacientou-se.   minha amiga, droga! Deveria estar indignada com o que ele fez comigo.
	Desculpe, mas prefiro ficar neutra nesse assunto, Marion. Conheo vocs dois h muito tempo e... bem, sempre existe os dois lados de uma histria.
	O que est querendo dizer?
	Geoff no foi o nico que dedicou mais tempo ao trabalho nos ltimos dois anos. Voc tambm tem andado muito ocupada. E como se voc e Geoff estivessem correndo em direes opostas.  Fitou Marion nos olhos.  E posso apenas imaginar o motivo.
Seguiu-se um longo silncio.
	Sobre o que est falando?  Marion indagou num fio de voz.
Bronwyn respirou fundo, unindo as mos.
	Voc e Geoff passaram um bom tempo tentando ter um filho, e sempre me perguntei se...
Marion interrompeu-a com um riso irnico.
	Acha que nossos problemas so resultado do fato de no termos filhos? Oh, essa  boa!
	Pense um pouco, Marion. Dois abortos. A operao. Todas essas procedncias tediosas na clnica de infertilidade. No me entenda mal, claro que vocs agiram corretssimo diante da situao. Mas vamos encarar a realidade, isso deve ter deixado mgoas, talvez maiores do que voc imagina.
	No sabe o que est falando.
	Talvez no. Ento por que no me diz qual  o problema? Depois de cinco anos tentando ter um filho sem conseguir, como est seu ego, Marion? E o de Geoff?
Marion olhou para a amiga, o corao acelerado.
	Isso no  da sua conta!  Pegou a bolsa e se dirigiu  porta.  No tem o direito de tentar analisar minha vida. Isso tudo no passa de psicologia barata. To vazia quanto a lenda idiota sobre essa capela!
Bronwyn no se mexeu, mas Marion notou que ela ficou magoada.
	Tenho s mais uma pergunta  Bronwyn disse. Voc e Geoff j pensaram em adoo?
Marion no pde deixar de rir novamente.
	Realmente no quer entender, no ?  tarde demais para pensarmos em adoo.
 No diga isso. Nunca ... Acho que voc e Geoff deveriam analisar o tempo que passaram tentando ter um filho.
	Chega, por favor. No tem ideia do quanto  frustrante ouvir esses interminveis conselhos sobre uma situao onde no existe mais esperana.
	Sempre h...
	No no meu caso. Geoff e eu terminamos tudo, Bronwyn. Toda aquela magia do comeo desapareceu do nosso casamento.
Bronwyn permaneceu em silncio. Marion abriu a porta.
	Preciso ir embora.
Saiu da casa e entrou no carro, sem olhar para trs

CAPITULO IV

Geoff permaneceu de p, na estrada da Fa-' zenda Borden, olhando para o vice-presiden-te da Seatham, que viera de Atlanta s para supervisionar a propriedade. Porm, desde o incio Geoff podia sentir algo mais na mente de OToole.
	Quer que eu o qu?
	Que venha trabalhar para a Seatham em tempo integral. Seja um dos advogados da casa. Como Tiffany.
Geoff encostou-se contra o carro, cruzando os braos. O executivo props uma tima quantia para o salrio de Geoff.
	E o que terei de fazer exatamente para merecer esse salrio?
	O mesmo que est fazendo para ns, basicamente. S que...  OToole sorriu ... ter de trabalhar na Califrnia.
Geoff afastou-se do carro, como se houvesse levado um choque.
	Califrnia?
	Isso mesmo. A Seatham est negociando uma localidade com duzentos acres de terreno perto de Camel. Voc trabalharia como integrante de nossa equipe legal durante todo o acordo.
	E quanto tempo durar?
	Dois ou trs anos. Sei que  uma deciso difcil. Ter de pensar direito, falar com sua esposa.
	Quando precisa da resposta?
	No estou com pressa. Trs semanas ser suficiente.
	Para uma mudana to radical, o prazo parece at pouco para mim.
Bem, isso porque queremos que voc v para l e comece a trabalhar daqui a um ms. Sei que isso o deixar com vrias coisas para resolver por aqui, como o que far com sua casa, por exemplo. Contudo, faremos com que valha a pena para voc, pode acreditar. Para ajud-lo na deciso,
queremos lev-lo para l durante alguns dias.
Geoff arqueou uma sobrancelha. No gostava de ideia de outras pessoas controlando sua vida.
Isso se no for atrapalhar sua agenda, claro. Temos alguns problemas para voc comear a dar uma olhada, mas essa viagem ser basicamente para que conhea outros membros da empresa. Tenho certeza de que vai adorar o lugar.
Geoff enfiou as mos nos bolsos da cala. No podia acreditar que estivesse mesmo pensando na oferta. O salrio era tentador, o trabalho novo e desafiador. E a Califrnia? Bem, seria um lugar onde poderia se distrair depois do fim de seu casamento.
	O que acontecer quando o projeto completar os dois ou trs anos de prazo previsto?
	Esperava que perguntasse isso  o executivo sorriu.
 Comearemos o projeto Seatham Seattle, nossa pretensa filial na costa oeste. Quando estiver pronta, gostaramos muito de ver seu nome impresso em uma das portas.
	Est me oferecendo uma posio permanente na costa oeste?
	Isso mesmo. Mas no precisa dar a resposta antes de... um ano, pelo menos.
Geoff estreitou o olhar.
Preciso perguntar uma coisa. Por que eu?
	Por que no voc?
Geoff balanou a cabea.
	No  uma resposta satisfatria.
OToole deu de ombros.
	Ok. Admito que no incio o contratamos porque queramos um homem nessa cidade que conhecesse os moradores e fosse respeitado por eles. Porm, no demorou muito tempo para nos darmos conta de que  um timo advogado.
A srta. Taylor foi a primeira a salientar isso.
	Tiffany?
	Sim. Ela foi uma das que sugeriu que prestssemos mais ateno ao seu trabalho, e foi isso que fizemos. Realmente gostamos do que vimos.
Geoff ainda estava preocupado com vrias questes, mas no ltimo instante uma Pickup surgiu na estrada, desviando sua ateno. Levou a mo  testa, fazendo uma sombra sobre os olhos. Era Marion, como ele imaginara. Aquele rosto delicado e os cabelos loiros, esvoaantes, s podiam pertencer a ela. Geoff a reconheceria em qualquer lugar. Dentro de segundos, a Pickup desapareceu na estrada.
Geoff terminou a conversa com o vice-presidente da Seat-ham o mais rpido possvel. Em seguida, entrou no carro e saiu na mesma direo que Marion tomara. Fazia ideia de onde ela planejava ir, e quando a alcanasse, torceria aquele pescoo, por mais delicado que ele fosse.
No final da Lafayette Road, localizava-se a entrada da praia. O vigia verificou o carto de residente de Marion e fez sinal para ela seguir em frente.
Porm, em vez de se encaminhar para o estacionamento, ela pegou uma estrada de terra denominada como Mattas-quamicutt Hill. A estrada subia por uma elevao meio oval, depois se ampliava, formando uma espcie de estacionamento. Aps fechar o carro e colocar o chapu de sol, Marion seguiu a p.
Estava ofegante quando alcanou o topo da colina, mas a subida valera a pena. A vista de trezentos e sessenta graus era de tirar o flego.
De onde ela estava, podia ver o Atlntico sob a luz do sol e os banhistas ao longo da praia. Virando para a direita, via-se milhares de acres de dunas que margeavam a praia. Mais para dentro, localizava-se a parte interna da ilha, com sua cidade permeada por reas verdejantes.
O olhar de Marion seguiu mais adiante, passando por sua prpria casa e por toda a cidade de Eternidade. Mais para a esquerda localizava-se a Fazenda Borden. Num impulso, voltou c olhar novamente para o oceano. No momento, no havia lugar em seu corao para os problemas que aquela fazenda trouxera para sua vida.
Do outro lado da colina havia uma relva convidativa, formando um lugar agradvel para sentar. Marion seguiu para l, deixando a brisa agitar seus cabelos e o vestido folgado. Ao sentar, jogou os cabelos de lado, inspirando a brisa marinha. No pde deixar de sentir um n na garganta.
Como pudera magoar a pessoa mais gentil que conhecia? Apesar de Bronwyn haver tocado em um ponto delicado, no tinha o direito de ter sido to hostil com ela.
Marion abraou os joelhos, com o olhar perdido no horizonte. Recordou as coisas desagradveis que dissera sobre a capela. Embora no acreditasse mais na lenda, por que desiludira Bronwyn tambm? A capela estava impregnada no sangue de sua amiga, como parte de uma herana, assim como as cerimnias que ela organizava faziam parte integral de sua carreira.
Marion fechou os olhos. Lgrimas quentes rolaram por seu rosto. Todavia, no estava chorando apenas pelo fato de haver magoado sua melhor amiga. Tambm por ela mesma, Geoff e o casamento realizado com base em tantas expectativas.
 No era para ser assim  sussurrou com um soluo.
Para onde fora toda a magia?, perguntou-se. Como algo to maravilhoso poderia morrer dessa maneira? At o momento, tentara justificar os problemas de mil maneiras. Porm, no fundo sabia que o fator principal era a impossibilidade de ela e Geoff terem filhos. O assunto era sinnimo de muita mgoa. Talvez por isso tenha reagido com tanta veemncia quando Bronwyn tocara nele.
Ela e Geoff no haviam tentado ter filhos nos primeiros anos de casamento. Achavam-se ocupados demais e no tinham condies de sustentar uma criana.
Porm, depois que Geoff comeou a trabalhar como advogado, os tempos difceis ficaram para trs. Marion diminura as horas de trabalho na loja, tornara-se seletiva quanto s viagens de negcios e os dois comearam a pensar em formar uma famlia.
Ela contou a Geoff que estava grvida no terceiro aniversrio do casamento. Ambos ficaram entusiasmados. Queriam muitos filhos e costumavam falar sobre isso at mesmo na poca do namoro.
Marion sentira-se feliz tambm por outra razo. Embora Geoff dissesse que no se importava com histrias de heranas, ela sabia que para ele era importante manter o nome da famlia. Sentia uma espcie de obrigao de oferecer uma famlia que fosse realmente dele. Com o pai re-cm-falecido e a me casada de novo, Geoff no tinha mais ningum, alm dela.
Infelizmente, a alegria terminou algumas semanas depois, quando ela abortou. Todavia, resolveram esquecer o incidente e tocar a vida em frente. Como o prprio mdico dissera, eles ainda eram jovens e tinham muito tempo. Foi ento que compraram a casa.
Porm, aps outro aborto, cinco meses depois, os dois comearam a achar que havia algo mais srio. Uma visita a uma clnica especial, em Boston, confirmou que Marion tinha uma doena que resultava em infertilidade.
A partir da, haviam iniciado vrios tratamentos. Comeara com uma cirurgia, que o mdico assegurara que resolveria o problema. Entretanto, um ano se passou sem que Marion conseguisse engravidar. Ento ela entrou em pnico. Por certo havia mais alguma coisa errada.
Ela e Geoff fizeram vrios exames e, mais uma vez, detectaram que o problema era com ela. Sua produo de vulos era to baixa e espordica que as chances de concepo eram quase nulas.
Ainda assim, continuaram tendo esperanas. Afinal, a cincia desenvolvera tantas drogas milagrosas e procedncias para ajudar casais a realizar o sonho da paternidade que no era possvel no encontrarem uma soluo.
Contudo, o tratamento no era fcil nem barato. Continuaram at chegar a um ponto em que no puderam prosseguir. Argumentando razes financeiras, Marion pedira ao mdico para cancelar as consultas em Boston. Porm, no fundo sabia que Geoff e ela prpria estavam cansados daquilo. No tinham mais esperanas. Isso no fora dito abertamente, mas ambos sabiam. Haviam desistido do sonho. Marion levantou o rosto molhado para o sol. Desde ento, haviam comeado a se afastar aos poucos. No que houvesse discusses, pelo contrrio. Mantiveram a rotina da casa, das contas... mas no do relacionamento. Era como se estivessem ausentes, mesmo quando faziam amor. At que se viram em lados opostos na questo sobre a Fazenda Bor-den. Nem eles mesmos entenderam como a situao chegara a esse ponto.
Todavia, no fundo Marion sabia o motivo. Geoff perdera o interesse por ela. Ele a vira como parte de um pacote que inclua filhos e quando notara que isso no seria possvel, simplesmente a descartara. Somente ela no era suficiente para ele.
No que Geoff pensasse tudo isso de forma consciente. Se fosse confrontado com a ideia, Marion tinha certeza de que ele negaria tudo com veemncia.
Entretanto, o fato permaneceu entre eles como um empecilho para que a vida continuasse sendo normal. Quando ela falhara, Geoff perdera o interesse. A magia morrera e ele fora procurar satisfao em outro lugar.
Por mais arrasada que estivesse, Marion no o culpava. Todo homem sonhava em ter um filho. Era um sonho que fazia parte da vida normal de todo ser humano. Geoff ainda era jovem e viril. Havia muitas mulheres capazes de oferecer o que ele queria e merecia. Mulheres como Tiffany.
	Marion!  disse uma voz grave e aborrecida.  Hei!
Ela virou o rosto, surpresa.
	Geoff?
Ele subia a colina em sua direo, mais atraente do que nunca. Oh, Deus, e ali estava ela com um n to apertado na garganta que nem conseguia falar.
	O que diabos h com voc?  perguntou Geoff, parando bem diante dela.
Marion levantou a cabea para ele, estreitando os olhos por causa do sol.
	No estou entendendo  respondeu.
	Eu estava na Fazenda Borden, ainda a pouco, e a vi passar voando com o carro. Estava correndo demais.
Marion desviou a vista, mordendo o lbio.
	E da? Veio at aqui para me multar?
Geoff olhou-a, surpreso. A voz de Marion estava trmula demais para as palavras de desafio que ela proferira.
	Bem...?  ela o incentivou a prosseguir.
Geoff pestanejou.
	Bem, o qu?
	Por que veio at aqui, Geoff?
Ele abriu a boca, mas no emitiu nenhum som. Simplesmente no conseguiu pensar em nada.
	Voc estava dirigindo de forma imprudente. Queria apenas avis-la, no caso de no estar ciente do fato.
Continuou olhando para Marion. Qual o problema com ela? Parecia nervosa, tensa.
	Para sua informao, eu estava a oitenta por hora  disse ela.
	No tem ideia do quanto estava correndo.
	Tendo ideia ou no, creio que isso no  problema seu. Paguei o seguro do carro. Se eu o bater, no ter nenhum problema, pode ficar tranquilo.
Geoff passou a mo pelos cabelos, impaciente.
	Hei, pare de dizer tolices.
De repente, ele soube o que o levara at ali. Medo. Preocupao. Vontade de saber se Marion estava bem.
	Desculpe  disse ela.  No quis ofend-lo. Por que no volta para a cidade e encontra algum que no diga tolices?
Geoff exalou um longo suspiro.
	Parece uma boa sugesto.
No entanto, em vez de ir embora, sentou ao lado dela. Nem ele mesmo sabia o motivo que o levara a fazer isso. Marion no o dispensou, por uma razo que ela tambm no entendia.
	Eu havia esquecido a vista que se tem aqui do alto  Geoff comentou.   de tirar o flego, no?
	Sim  Marion anuiu.
	Mattasquamicutt. "O lugar que v para sempre" disse ele.
Essa era a traduo literal da palavra indgena que denominava o lugar. No sculo XIX, os moradores da cidade modificaram-na apenas para "Eternidade".
Geoff fitou Marion nos olhos. Esquecera o quanto eles eram azuis.
	Algumas pessoas dizem que esse era o lugar onde os ndios vinham obter vislumbres de sabedoria quando estavam com problemas  Marion explicou.
	Gosto da ideia  comentou Geoff com um sorriso, deixando o olhar passear sobre ela.
Marion trajava um leve vestido amarelo e um delicado chapu de palha com uma fita amarela de cetim amarrada em torno da aba. Encantadora.
Os cabelos emolduravam-lhe o rosto e caam sobre os ombros, como uma nuvem dourada. Por um breve momento, Geof lembrou do perfume que eles emanavam e de como era bom senti-los junto aos lbios. Quando fora a ltima vez em que insinuara os dedos por entre aqueles fios dourados?
Observou o rosto delicado com mais ateno. Marion sempre tivera uma pele impecvel, sem precisar de maquiagem para se manter bonita. Hoje, entretanto, ela parecia cansada. Mas isso no importava; ele prprio no dormia direito h uma semana. Desviou a vista de repente.
	Ento, que problema em particular a trouxe at aqui?
 inquiriu ele, observando um barco a distncia.
Marion abraou os joelhos com mais firmeza.
	Acabei de ir visitar Bronwyn para reservar um horrio na capela para o casamento de Robyn e a nica data disponvel  daqui a trs semanas.
	E qual o problema com isso?
	Qual o problema! Geoff, trs semanas! Isso no nos d muito tempo.
Embora soubesse que Marion se referia ao casamento, Geoff no pde deixar de pensar que esse tambm seria o tempo que teriam para ficar juntos, antes da separao definitiva.
	Rob e Nate poderiam vir at a capela e casarem em uma cerimnia simples, sem muita suntuosidade.
	Eu sei, e Robyn disse que no faz questo de muita coisa. Mas tambm sei que ela sempre sonhou com um casamento com todos os detalhes tradicionais.
	E Bronwyn no pode ajudar? Aquele negcio que ela comeou...
	Casamentos, Ltda.?
	Sim. Ela no pode providenciar o casamento para voc?
Marion ficou de p.
	Talvez, embora ela esteja muito ocupada esses dias. Tenho certeza de que conseguirei dar um jeito.
	Ento, por que veio at aqui?
Marion deu alguns passos.
	Isso no  motivo suficiente?
Conhecendo Marion, Geoff achava que no, porm, preferiu manter a resposta para si mesmo. Tambm ficou de p e a seguiu. Marion estava olhando a Fazenda Borden.
	O que estava fazendo na fazenda?  perguntou ela, segurando o chapu por causa do vento.
	Desconfiada, Marion?
	Claro.  minha tarefa ser desconfiada.
	No se preocupe, eu no estava tramando nenhuma nova estratgia contra voc e seus colegas. Um executivo de Atlanta veio dar uma olhada no local e eu banquei o guia turstico, s isso. Foi um acontecimento normal, exceto...  Geoff interrompeu-se abruptamente.
Deveria contar a ela sobre a oferta da Califrnia? No, melhor no. Nem ele mesmo sabia que resposta daria. Em parte, dependeria do que Marion dissesse.
	Exceto o qu?  ela perguntou.
	Exceto...  provvel que eu tenha de jantar com ele essa noite  Geoff emendou, mas logo se arrependeu.
OToole voltaria para Boston para jantar com Tiffany. Agora teria de jantar sozinho. Talvez passasse na casa de Graham.
	No sei, Geoff  Marion balanou a cabea.
	No sabe o qu?
	Como voc pode trabalhar para essa empresa.
	Oh, entendo. L vem esse assunto novamente. J sei, quer saber o que aconteceu com meus princpios.
	Olhe para aquela fazenda.  Marion indicou o local com um gesto.  Como voc pode, em sua s conscincia, pegar um lugar daqueles, que tem estado ali h sculos, e ench-lo com prdios de concreto?
	No sou eu quem ir construir os prdios, lembra? Sou apenas o homem encarregado de fazer todo mundo entender o lado legal da construo. Alm disso, os Borden querem vender a propriedade. Se no venderem para a Seatham, ser para outra empresa. Eles garantiram isso. E pode acabar sendo para uma companhia sem viso esttica, tica e...
	A Comisso de Conservao se ofereceu para comprar a fazenda.
	Claro, por um tero do preo. Francamente, Marion...

	Bem, se pelo menos nos derem algum tempo para levantarmos mais dinheiro...
	No h dinheiro. Todo o oramento de Eternidade est no limite. Marion, ser bom para o desenvolvimento da cidade. Qual o problema com voc?
	Trar aborrecimentos.
	Progresso.
	Aborrecimentos  ela insistiu, cruzando os braos com fora.
	Ok. Ento prefere manter aquele galinheiro que Hannah Borden no usa h vinte anos? Voc sabe, aquele infestado de ratos. Aquilo sim,  realmente pitoresco. Deve ramos trazer crianas em excurses e tudo mais.
Marion apertou os lbios. Geoff no dissera aquilo para diverti-la. Estava furioso. Ele olhou para o oceano.
	Preciso voltar para a cidade. Tenho de estar no tribunal a uma e meia. O caso de um trabalhador. Trabalho de rotina.
	Hmm.  Marion olhou para o relgio.  Tambm preciso voltar para a joalheria.
	Desculpe interromper sua meditao  disse Geoff.
	Tudo bem. Acho que os deuses no tm nenhuma resposta para mim hoje.
Ao. chegar no carro, Geoff ficou olhando Marion entrar na Pickup. Estavam indo para a cidade, era meio-dia e nenhum deles havia comido nada...
	Marion?  disse num impulso.
Marion olhou pela janela.
	Sim
"Oh, isso  absurdo", Geoff pensou consigo. "Meu corao est acelerado feito o de um adolescente no primeiro encontro". Pessoas prestes a se separar no costumavam almoar juntas.
	Uh... nada  respondeu.  Chegarei em casa por volta das dez.

CAPITULO V

Embora houvesse dito dez, Geoff no chegou fantes da uma da manh. Marion permanecera acordada, sem conseguir pegar no sono, imaginando onde ele estaria. Imaginando no. Ela sabia onde Geoff se encontrava; esse era o problema.
Ouviu ele sair logo cedo para o escritrio. Observando as olheiras diante do espelho do banheiro, resmungou um "Maldito Geoffrey Kent!", consigo mesma e pegou o vidro de anticidos. Comprara-o na semana anterior e ele j estava quase vazio.
No era uma boa maneira de comear um sbado, ainda mais esse em particular. Por mais que estivesse com problemas, precisava se concentrar no casamento de Robyn. Tinha de encontrar um lugar para a recepo. Depois da igreja, esse era o detalhe mais importante a ser providenciado.
Claro que muito trabalho poderia ser evitado se ela fosse at Bronwyn pedir a lista de restaurantes e sales de festa disponveis. Marion pensou em telefonar se desculpando, mas no teve coragem de faz-lo. No podia desmentir suas palavras. Para ela, a lenda realmente no significava nada e a capela no tinha nenhuma magia, alm do detalhe de no estar disposta a ouvir outro sermo de Bronwyn a respeito de como ela e Geoff haviam nascido um para o Outro.
Porm, duas horas depois, Marion sentou-se  mesa com a cabea entre as mos, desesperada. Organizar um casamento em trs semanas era loucura! Ento ouviu o carro de Geoff parando diante da casa.
Endireitou o corpo, sentindo o corao acelerado. Por que ele chegara to cedo? Geoff entrou pouco depois. Deixou o jornal e a pasta sobre a mesa e foi direto  cafeteira. Marion notou que ele parecia irritado.
	O que aconteceu?
Geoff depositou a xcara sobre a mesa.
	Marion, como pde fazer isso?
	O qu?  ela empertigou-se.
	Isso.
Ele jogou o jornal na direo dela. Marion percorreu a vista pela pgina.
	Oh,  a minha entrevista. No sabia que sairia na edio dessa semana.
Sorriu ao ver a foto tirada em seu escritrio. A garota que a entrevistara era uma estudante universitria que estava trabalhando no jornal durante o vero. Seu talento com a cmera deixava muito a desejar.
O artigo devia ser sobre Marion e o desenho de jias, todavia ela tambm deixara escapar alguns detalhes sobre seu envolvimento com o Comit do Espao Aberto, assim como algumas crticas sobre a Seatham.
	Ah, pelo amor de Deus, Geoff,  apenas uma entrevista para o jornal local!
	Pouco importa. Esse jornal alcana as pessoas certas, os eleitores.  Passou a mo pela nuca.  Desde quando tornou-se uma ativista poltica?
Apesar do cansao, Marion sorriu.
	Uma meia dzia de comentrios faz de mim uma ativista poltica?
	Claro que sim!
Geoff virou de costas, mas logo voltou a encar-la.
	Est com uma aparncia pssima, Geoff.
	timo.  Tirou a gravata e abriu os primeiros botes da camisa.   assim mesmo que estou me sentindo.
	Mas o que diz esse artigo para deix-lo to furioso?
	Voc jogou sujo, Marion. Todos seus comentrios so emocionais. Abordou o medo das pessoas sobre o futuro do planeta e at apelou para o senso de patriotismo. Completamente idiota!
Ela cruzou os braos com firmeza.
	Muitssimo obrigada  ironizou.  Agora sou idiota, alm de todo o resto.
Geoff estreitou o olhar.
	Que resto? Sobre o que voc est falando?
	Nada.  Marion desviou o olhar.  Nada.
Geoff sorveu um gole de caf, segurando a xcara com as duas mos. Em seguida, voltou a olhar para Marion, franzindo o cenho.
	No foram declaraes apropriadas, Marion. A entrevista deveria abordar sua profisso como desenhista de jias.
	Oh, pelo amor de Deus, Geoff. Voc vive defendendo as ideias da Seatham na tev.
	Apenas na estao local  ele se defendeu.
	Apenasi  Marion zombou, frustrada.  Tem ideia de quantas pessoas assistem aquele canal? A exposio  muito maior do que a que se tem com uma mera entrevista de jornal. Portanto, no me venha com repreenses sobre "declaraes apropriadas". Sou livre para falar o que quiser.
Geoff lanou-lhe um olhar direto.
	At na reunio especial da cidade?
	Sim, se eu tiver de faz-lo  replicou ela.
O telefone comeou a tocar.
	Oh, deve ser do Harborside  avisou Marion.  Liguei antes, perguntando se eles poderiam reservar o salo.  Tirou o fone do gancho.  Al?
Era Lynn, a balconista da joalheria. Ligara para perguntar se Marion poderia conseguir outra pessoa para substitu-la na parte da tarde porque ela no estava se sentindo bem.
Enquanto Geoff lia o resto do jornal, Marion ligou para outro de seus empregados. Depois outro. Ningum podia substituir Lynn. Com um suspiro, Marion recostou a testa na parede diante do telefone. E agora? No queria ir para a joalheria, embora, s vezes, trabalhasse no sbado. Hoje, porm, precisava providenciar as coisas para o casamento de Robyn.
Quando o telefone tocou bem prximo ao seu ouvido, ela se sobressaltou. Atendeu-o com o corao acelerado.  Sim?
Dessa vez, tinha de ser o restaurante. S que no era Tratava-se da fotgrafa que costumava fotografar suas jias, querendo marcar algumas fotos para um novo catlogo. Sentindo-se bastante aborrecida, Marion verificou a agenda e marcou a data para o prximo trabalho.
Aps se despedir, ligou novamente para Lynn e disse a ela para fechar a joalheria. Em seguida, foi  geladeira pegar um copo de leite. Ao levantar a vista, notou que Geoff a observava com ateno.
	Sobre o que estvamos falando?  perguntou a ele.
Geoff balanou a cabea devagar.
	No lembro.
O telefone tocou novamente. Marion tomou o restante do leite e tirou o fone do gancho com falsa calma.
	Sim?
Dessa vez era a ligao pela qual ela estava esperando. Infelizmente, porm, o gerente do Harborside no pde dar a resposta que ela esperava receber. O salo do restaurante estaria alugado no dia do casamento de Robyn.
Aps desligar, Marion foi at a janela e ficou olhando para o jardim.
	Marion?
Ela moveu um brao atrs de si, como se o gesto pudesse fazer Geoff desaparecer.
	No posso falar sobre a Seatham agora.
Ouviu ele se aproximar. Segundos depois, sentiu as mos dele sobre seus ombros. Marion tentou se controlar, mas as emoes trazidas pelo simples toque foram demais para ela. Devagar, Geoff comeou a massagear sua nuca.
	O que andou fazendo durante a manh?  ele quis saber.
	Estou tentando encontrar um lugar para a recepo de Robyn.
	E no conseguiu nada?
	Alguns restaurantes esto disponveis, mas so pequenos demais para o que temos em mente. O salo Elks est disponvel, mas... oh, Geoff...
Lanou-lhe um olhar de apelo por cima do ombro.
	Hmm. No  exatamente o Ritz, certo? E quanto ao Haven Inn?
	Ocupado.
	A Taverna Wharf?
	Ocupada tambm.
Geoff suspirou.
	Sabe, muitas pessoas j realizaram bonitas recepes no salo Elks. Os Van Bassen no poderiam encher tudo aquilo de flores, bales ou algo do gnero?
Marion sentiu-se mais aliviada, agora que estavam falando sobre o problema.
	E, acho que no far nenhum mal verificar o local.
	Existe mais alguma coisa que precise ser feita hoje?
A voz de Geoff transmitiu mais segurana para Marion, tranquilizando-a um pouco.
	Eu estava pensando em encomendar o bolo.
	Precisa de ajuda?  ele se ofereceu.
	Acho que conseguirei me virar sozinha.
Geoff continuou a massagear a nuca e os ombros dela.
	Deixe-me ajud-la, Marion.
	Por qu? Achar tudo isso uma chatice.
Geoff virou-a de frente para ele. Marion continuou muito consciente das mos dele em seus ombros. Estavam to prximos que ela podia sentir o calor do corpo msculo chegando at o seu. Sentiu-se zonza por um momento.
	Bem, pensei que no seria uma m ideia passarmos o dia juntos hoje.
Uma sombra de mgoa surgiu nos olhos de Marion. Geoff soltou-a no mesmo instante e se afastou.
	Quero dizer que seria bom sermos vistos juntos. Para acabar com rumores que possam estar circulando a nosso respeito. Ontem  noite, Graham me contou que alguns dos
pacientes dele andaram fazendo perguntas sobre ns.
	Foi  casa de Graham ontem  noite?  Marion pes tanejou, confusa.
Geoff assentiu e continuou contando sobre os rumores que ouvira. S que Marion no prestou mais ateno. Estava surpresa com a notcia. Desde a noite anterior, poderia jurar a si mesma que Geoff havia estado com Tiffany.
	Ento, o que me diz? Vamos providenciar algumas coisas juntos?  ele sugeriu.
	No precisa voltar para o escritrio?
	No. O cliente que eu atenderia  tarde telefonou cancelando o encontro.
	Posso fazer isso sozinha, Geoff. No precisa se preocupar.
	Eu sei, mas se no quiser sua irm ouvindo fofocas da prxima vez que vier  cidade...
Marion mordeu o lbio. Ento a sugesto no surgira do desejo de Geoff de estar realmente com ela. Qualquer gentileza que ele demonstrasse seria apenas uma encenao para convencer as pessoas de que eles ainda estavam juntos e felizes. Porm, pelo bem de Nate e Robyn, achou melhor concordar com a ideia.
Aps encomendarem o bolo com Lucy, dona da melhor confeitaria da cidade, Marion e Geoff foram  alfaiataria de Ted Webster. A me de Ted era dona de uma butique de noivas e, pelo visto, ele j sabia da novidade.
	Minha me me contou  anunciou ele.  Robyn vai mesmo se amarrar, no?
	Sim, e est adorando a ideia  Marion sorriu.
Ted pousou a mo sobre o ombro de Geoff.
	E voc veio encomendar um smoking que o deixar elegante mas muito desconfortvel, certo?
Geoff sorriu.
	Diga-me uma coisa, Ted, por que deixamos as mulheres organizarem casamentos?
	Hei, elas me mantm nesse negcio!  Ted protestou em tom de brincadeira.  Sente, Marion.  Dirigiu-se novamente a Geoff:  Essa  a cadeira de diretor.
Marion sentou, enquanto Ted tirava as medidas de Geoff com sua costumeira eficincia.
	Onde ser a recepo?  indagou ele, anotando as medidas do brao de Geoff.
	Ainda no temos certeza  Marion respondeu.  Iremos procurar por isso ainda hoje.
	Ento suponho que ainda no tm uma banda?
	No. A sua est disponvel?
Ted olhou-a com ar incrdulo.
	Algumas de nossas apresentaes so feitas com um ano de antecedncia.
Ted tocava com uma banda local chamada Hneymooners. O grupo tornara-se popular devido a Kerry Muldoon, uma jovem talentosa que era lder e vocalista da banda.
	Bem, tenho certeza de que Bronwyn conseguir algo muito bom para vocs  Ted acrescentou.
Marion apenas assentiu. Ted assobiou.
	Sua cintura continua impecvel, Geoff. Como consegue isso, homem?  Ele levou a mo  prpria cintura.
	Por que no entra no clube?  Geoff sugeriu.  Graham e eu jogamos raquetebol todas segundas e quintas,  noite. Isso e a sala de musculao nos mantm em forma.
Geoff continuou explicando as atividades oferecidas pelo clube de esportes da cidade, entretanto, pela segunda vez nesse dia, Marion surpreendeu-se e no prestou mais ateno. Raquetebol. Como pudera esquecer? Fora no clube que Geoff estivera na quinta  noite!
	Ok, Marion.  Ted pendurou a fita mtrica em torno do pescoo.  Querem algo formal? Casual?
	Semiformal  ela respondeu.
Ted comeou a examinar os cabides.
	Ok, Geoff. Vamos realizar um pequeno desfile de moda para a dama.
Minutos depois, Geoff retornou vestindo o primeiro smoking. Marion inclinou a cabea para um lado depois para o outro, tentando fingir que seu corao no disparara. Esquecera do quanto Geoff ficava atraente em uma roupa de gala. Os ombros largos e o peito forte preenchiam o traje com perfeio, enquanto a camisa branca enfatizava o bonito bronzeado de sua pele. No pde evitar que seus olhos o percorressem de alto a baixo.
	Gostei desse  comentou.  Mas vamos ver os outros, antes de decidirmos.
O segundo era parecido com o primeiro, exceto pelo detalhe da faixa vermelha na cintura, da mesma cor da gravata. Marion ficou de p.
	Espere um instante  disse com gentileza, arrumando a gravata que estava meio torta.
Seus dedos tocaram o pescoo de Geoff, lanando fagulhas por todo seu corpo.
	Desculpe  sussurrou ela enquanto ele permanecia imvel, fitando-a com olhar penetrante.
Marion teve certeza de que Geoff notara sua respirao alterada.
	Pronto.
Mordeu o lbio, sem ousar levantar a vista. Isso no deveria estar acontecendo. No depois do que ele fizera e do fato de estarem querendo a separao. Qual o problema com ela? No tinha mais orgulho ou amor prprio?
Afastou-se com as pernas trmulas. Geoff experimentou outros modelos, mas, por fim, eles escolheram o primeiro. Quando Geoff voltou para vestir o jeans e a camisa plo, Marion o seguiu com o olhar.
Sobressaltou-se ao notar que Ted a observava. Ele riu quando ela corou.
	Hei, no precisa ficar embaraada. S espero que Ruthie ainda esteja me olhando assim depois que estivermos casados h tanto tempo quanto vocs. A propsito, quantos anos mesmo?
	Onze no prximo ms. Quanto lhe devemos?  Marion acrescentou rpido, querendo mudar de assunto.
Estava acertando a conta quando Geoff voltou.
	Marion disse que o aniversrio de casamento de vocs ser logo  Ted comentou enquanto preenchia a nota. Esto planejando alguma coisa especial?
Nenhum dos dois respondeu de imediato.
	Ainda no temos certeza  Geoff respondeu, evasivo.
Olhou para o relgio.  Bem, precisamos ir. Ainda temos muito a fazer. No esquea de aparecer no clube.
Marion e Geoff no trocaram nenhuma palavra durante o trajeto at o salo Elks.
Uma hora depois, voltaram para o carro. No caminho, pararam em uma fonte natural para beber gua. Geoff molhou as mos e tocou o rosto de Marion. Ela fechou os olhos, parecendo cansada.
	Decidiu quanto ao salo?  indagou ele.
	Sim. No gostei. Est ainda pior do que eu lembrava.
 Inclinou-se para beber um pouco de gua.  No sei o que fazer, Geoff.
	Pois eu sei  ele sorriu.  Vamos almoar.
Marion no pde deixar de retribuir o sorriso.
	Foi a melhor ideia do dia  respondeu.
O Bridge Street Caf existia desde muito antes de Marioi nascer. H algumas semanas, porm, o local fora ampliad Agora tambm existia um ptio com vista para o mar. El e Geoff escolheram uma das mesas cobertas do ptio.
	O que vai pedir?  Marion perguntou, percorrendo a vista pelo menu.
	Mariscos fritos. E o que mais?
Mariscos fritos era a especialidade da casa.
	Parece bom  disse ela.  Pea duas pores.
Marion fechou o menu. Sentia-se estranha, sentada ali, ao lado do marido. No saam para comer fora h... bem, no conseguia lembrar a ltima vez. Mais estranho ainda era a maneira como seu corao insistia em se manter acelerado, como nas primeiras vezes em que sara com Geoff.
	Tenho uma ideia quanto ao casamento de Robyn disse Geoff, hesitante.  No sei se voc vai gostar, mas...
	Estou disposta a ouvir qualquer coisa. Qual  a ideia?
	Bem, que tal oferecermos a recepo na nossa casa?
A sugesto pegou Marion de surpresa. Tanto que ela abriu a boca, mas no conseguiu dizer nada.
	Voc sabe, uma festa no jardim, ao ar livre  Geoff acrescentou.
	Tem certeza de que sabe o que est sugerindo? A casa ficar cheia de gente, barulho...
Geoff deu de ombros.
	E o tempo?  indagou Marion.  Festas ao ar livre dependem totalmente do tempo, e aqui, na Nova Inglaterra,  mais provvel estar chovendo do que o contrrio.
	Mas  para isso que servem aquelas enormes tendas de lona  ele salientou.
	Teremos trabalho demais, Geoff. Preparar a festa, o jardim...
	Ns temos trs semanas.
Marion olhou para o rosto atraente do marido, tentando captar a sinceridade contida na N palavra "ns". Para seu desespero, ainda sentia-se ligada a ele de alguma maneira.
Oh, Geoff.  Cobriu os lbios com a ponta dos dedos.
Seria maravilhoso, no? Ele assentiu.
	Vamos fazer isso, Marion. Voc quer que Robyn tenha um casamento perfeito...
Ela sorriu, incapaz de conter a alegria.
	Ok, ento vamos fazer isso.
Geoff sorriu, olhando os detalhes do rosto dela, como se a visse pela primeira vez.
	Melhor agora?
	Muito! Assim que chegarmos em casa, ligarei para Cari Hubbard para encomendar uma tenda.
	Ele tambm fornece mesas e cadeiras?
	Tenho quase certeza. Depois contratarei o buffet dos Silva. Isso se eles estiverem com a agenda disponvel para nos atender.
	Ah, Marion. Depois de todos os favores que j prestei a eles?
Marion respirou fundo, aliviada. Na ltima semana, era a primeira vez que se sentia em paz.
O almoo no poderia ter sido mais agradvel. Tudo parecia perfeitamente em ordem at a hora em que, antes de sarem, Geoff foi ao banheiro.
S ento Marion notou que no estavam sozinhos. Do outro lado do restaurante, olhando-a como uma assassina, avistou Tiffany Taylor.

CAPITULO VI

Tiffany ficou de p e atravessou o ptio, deixando um cavalheiro bem-vestido sentado sozinho  mesa.
	Ol, sra. Kent.
Marion perguntou-se se ouvira direito ou se Tiffany dirigira-se a ela como "sra. Kent" por puro sarcasmo. Ser que ela sabia que o ttulo era apenas temporrio?
	Quer falar com Geoff?  perguntou  advogada.  Ele foi l dentro um instante.
	Na verdade, no  respondeu Tiffany.  Quero falar com voc.
Sentou na cadeira de Geoff, mesmo sem ser convidada.
	Comigo?
	Isso mesmo. Quero que saiba o quanto me senti mal pelo que lhe aconteceu na semana passada. Entrar no escritrio de Geoff daquela maneira e... Lamento o incidente.
Tiffany falava num tom gentil, mas o instinto de Marion avisou-a para ter cautela.
	Sei que voc e Geoff esto tendo problemas no casamento...
Foi como se uma faca houvesse sido cravada no peito de Marion. Geoff falara sobre sua vida particular com essa estranha? E quais problemas ele abordara?
	Porm, nunca tive inteno de ser o piv da separao entre vocs  Tiffany prosseguiu.  Tenho meus princpios sra. Kent.
A cabea de Marion comeou a latejar. No estava en tendendo o que Tiffany queria realmente dizer. Ser que os princpios da advogada permitiam que ela beijasse homens casados, desde que eles estivessem prestes a se separar das esposas?
	Voc no nos separou, Tiffany. Geoff voltou para casa  Marion respondeu por orgulho, antes de ter tempo para raciocinar.
Dentro de trs semanas, porm, Tiffany saberia que tudo no passara de uma farsa.
A expresso da advogada tornou-se ligeiramente desapontada. Porm, ela forou um sorriso.
	Otimo, timo. Fico feliz por vocs.  Tocou o brao de Marion.  Tenho muita considerao por seu marido, sabe. Considero-o a pessoa mais capaz e gentil com quem j trabalhei.
Marion sentiu-se meio confusa com a declarao de Tiffany. Algum com interesse no marido de outra no o elogiaria to abertamente na frente da esposa.
	Tambm  o colega mais compatvel que j tive  Tiffany acrescentou.  Trabalhamos muito bem juntos e eu gostaria de continuar trabalhando com ele no futuro.
Com sua permisso, claro. Nosso relacionamento  puramente profissional. Quero que entenda isso, especialmente agora que ambos recebemos uma maravilhosa proposta de trabalho na costa oeste.  Interrompeu-se um instante, estudando a reao de Marion.  No quero que nenhum desentendimento entre ns duas atrapalhe a deciso de Geoff.
Marion sentiu um frio no estmago. Tiffany aproximou-se mais, dirigindo-se a ela como se fossem velhas amigas: - No pode me dar sequer uma pista de qual ser a resposta dele?
	Uh... no  foi tudo que Marion conseguiu balbuciar.
	Espero de verdade que ele aceite a proposta. Geoff seria um timo advogado permanente para a Seatham e, bem, voc j deve saber o quanto ele est cansado desses casos de cidade pequena. Um homem com a competncia de Geoff sente-se sufocado em um lugar como esse. Trabalhando para a Seatham, ele ter oportunidade de viajar, conhecer novas pessoas. Far muito bem  carreira dele, isso sem contar o retorno financeiro. Voc tambm sair ganhando. Isto , se a Seatham permitir que o acompanhe  acrescentou com um risinho irnico.  Sua oposio ao projeto da empresa no passou despercebida.  Tornou-se sria:  Tambm no fez nenhum bem para Geoff.
Marion estava to aturdida que s notou a volta de Geoff quando Tiffany ficou de p para cumpriment-lo. Marion ouvia as vozes deles como que vindas do fim de um tnel. O homem sentado  mesa de Tiffany tambm se aproximou e Geoff o apresentou. Marion no prestou ateno ao nome. Mais algum ligado  Seatham.
Somente o que no lhe passou despercebido foram os olhares significativos que Tiffany lanava para Geoff e a maneira como ela se insinuava para ele. Antes de partir, ela fez questo de lembrar um compromisso que os dois tinham na segunda-feira, enumerando pessoas que Marion no conhecia.
Geoff e Marion voltaram para casa quase em total silncio. Ele perguntou se ela estava bem e Marion respondeu que sim, sem muita convico. Depois ele indagou se Tiffany a havia aborrecido e ela disse que no.
Marion no sabia o que pensar. Geoff recebera uma proposta para trabalhar na costa oeste e no lhe dissera sequer uma palavra a respeito. Tiffany, porm, sabia de tudo. Alis, a advogada parecia saber mais coisas a respeito de Geoff do que ela prpria. Como o fato de ele estar cansado dos casos de cidade pequena. Geoff queria o desafio de trabalhar para uma empresa grande. Quanto mais pensava, mais sentia-se magoada com Geoff.
No era de admirar que ele no houvesse contado nada sobre a oferta de trabalho. O assunto no tinha nada a ver com ela. Sua opinio no contava.
Tiffany iria trabalhar com Geoff. Cada vez mais convencia-se de que suas suspeitas tinham fundamento. S sendo uma idiota para acreditar que fora mera coincidncia Tiffany e Geoff serem indicados para o mesmo setor de uma empresa em um lugar to distante.
Tiffany tinha a mesma profisso de Geoff, era to competente quanto ele, podia ter filhos...
Bem, talvez estivesse na hora de enfrentar a realidade de frente e admitir que seu casamento estava mesmo terminado.
Geoff observou os passos firmes de Marion quando ela foi direto para a cozinha. Perguntou-se o que diabos teria dado nela dessa vez. Por um momento, durante o dia, ela quase fora a mesma de antes. Parecera relaxada e at feliz enquanto almoavam. Quanto a ele, bem, sentira-se novamente como parte da vida dela.
Todavia, l estava Marion mantendo aquela distncia de novo. Enquanto a seguia at a cozinha, observou-a pegar a agenda e ligar para a loja de Cari Hubbard.
	No tem nada para fazer?  Marion inquiriu com rudeza.
Geoff ergueu as mos.
	J estou saindo, j estou saindo.
Pegou o jornal e a pasta e foi para o escritrio. Concluiu que Marion estava aborrecida por causa de Tiffany, mas no conseguia entender o motivo. Tiffany sempre se comportara de uma maneira muito profissional, exceto naquela noite em que o beijara num momento de euforia.
Geoff sentou  mesa, afundando as mos nos cabelos. O comportamento de Marion no fazia sentido, exceto quando analisado sob uma perspectiva especfica: ela estava usando Tiffany como uma desculpa para se livrar do casamento.
Olhou para a foto dela no jornal, mas logo ficou de p e foi ao bar, servir-se de alguma bebida forte. Marion via beleza em coisas que nenhuma outra pessoa conseguia enxergar. Por alguns preciosos anos, ela abrira esse espao para ele. Geoff no sabia se Marion fazia ideia do quanto ele apreciava isso. O lado frio de seu trabalho como advogado fazia com que ele necessitasse admirar as coisas belas do mundo. E Marion lhe proporcionava isso, exibindo-lhe as jias que ela desenhava com tanto carinho e dedicao.
Agora, sem o apoio e a presena dela ao seu lado, ele sentia-se... no queria dizer inseguro, mas com certeza no era uma sensao confortvel.
Toda essa situao no fazia sentido. Que mal havia no fato de ele trabalhar para a Seatham? Examinara a empresa com cuidado, antes de se ligar a ela, e no descobrira nada que pudesse compromet-lo.
De qualquer forma, a distncia de Marion o deixava com uma estranha sensao de perda. Por um momento, durante a tarde, tivera a impresso de estar novamente ligado a ela. Talvez devesse sugerir algo para fazerem  noite. Alugar um filme, pedir uma pizza...
Saiu do escritrio e voltou  cozinha, mas no encontrou Marion. Ouviu uma movimentao no escritrio dela. Num impulso, foi at l. Ela estava sentada de costas para a porta, concentrada no trabalho. Sob a luz do sol, que entrava pela janela, Marion parecia ainda mais linda. Geoff sentiu uma imensa vontade de toc-la, e sabia que essa necessidade fora se acumulando durante o dia.
	Marion?
Ela no se virou. S ento Geoff percebeu que Marion estava usando fones de ouvido. Ela ouvia msica, sem notar sua presena.
Durante vrios minutos, Geoff ficou observando-a sem ser notado. Sentiu-se extremamente sozinho.
No haveria nenhum filme essa noite. Nem pizza. Por experincia, sabia que Marion seria capaz de ficar horas ali, sem sentir falta de nada nem ningum. Ela no precisava dele.
Geoff voltou para o escritrio e telefonou para 0'Toole, em Boston. Perguntou se podia ir at a Califrnia. Quanto menos tempo passasse nessa casa, melhor.
	Se estiver mesmo disposto, poderemos providenciar
uma reserva de vo para a quinta-feira  tarde. Que tal?
	Para mim, est timo.
Aps desligar, Geoff pensou em servir-se de outra bebida. Porm, mudou de ideia e saiu para o clube. Exercitou-se na sala de musculao at cada msculo de seu corpo doer de cansao.
Sozinho, em pleno sbado  noite, fazendo ginstica at cansar... No, essa no fora a vida que ele planejara para si.
Na segunda-feira de manh Geoff pediu a Freddie que reorganizasse sua agenda, para que ele estivesse livre no dia da viagem at Carmel.
	Isso significa horas extras de trabalho, sr. Kent  avisou Freddie.
	Eu sei  respondeu Geoff.
	Hmm, a tal srta. Taylor tambm vai para a Califrnia?

	No, Freddie. A tal srta. Taylor est em Boston.
Freddie hesitou um instante.
	E essa viagem  realmente necessria?
	Sim  Geoff respondeu, irritado.
Pegou uma xcara de caf e foi para sua sala, fechando a porta com firmeza. Telefonou para Graham, explicando por que no iria  partida de raquetebol na quinta-feira.
	Aonde voc vai?  Graham indagou, incrdulo.  Oh, Geoff voc est metendo os ps pelas mos. Duas se manas e meia para salvar seu casamento e voc vai viajar?
	No existe nada para ser salvo, Graham. Quantas vezes terei de lhe dizer isso?
	A tal Tiffany vai junto?
	No!
O que as pessoas tinham contra Tiffany, afinal?, Geoff perguntou-se. Desligou pressentindo o incio de uma dor de cabea. Ao chegar em casa, encontrou Marion no escritrio. Contou a ela sobre a viagem, e Marion fingiu indiferena, embora seu corao estivesse partido.
	Por que far essa viagem?
Sua voz saiu calma, apesar da apreenso.
	No se trata de nada importante. A Seatham est tentando comprar uma propriedade e precisa do meu trabalho para ajudar na liberao do terreno para que a construo possa ser iniciada.
	Entendo. Quanto tempo ficar por l?
	Partirei na quinta-feira  tarde e voltarei na prxima tera. Tudo bem para voc?
Marion deu de ombros.
	Faa o que achar melhor.
Dizendo isso, voltou a se concentrar no trabalho. Geoff voltou para o escritrio recriminando-se por haver perguntado aquilo. Esperava que Marion se mostrasse preocupada ou pelo menos curiosa. Quando ser que aprenderia a conviver com o fato de que ela no dava mais a mnima para ele?
Na quinta-feira  tarde, Marion no conseguiu mais ignorar o fato. Essa situao com Geoff estava afetando sua sade. Desde a discusso que provocara a sada dele de casa, seu estmago andava to afetado que ela vomitava quase todos os dias. Seu apetite inexistia e seu sono andava to atrapalhado que ela estava com receio de ter uma estafa de uma hora para outra.
No deixava de ser compreensvel. Ver seu casamento ser arrasado no estava sendo fcil, ainda mais quando ser a esposa de Geoff era o fato que ela considerava mais precioso em sua vida. Sabia que atualmente as mulheres no levavam isso em considerao, mas, para Marion, sempre fora motivo de orgulho apresentar-se como esposa de Geoff. No sabia explicar por qu, mas era algo que ela sentia dentro de si.
Agora, analisando sua atitude com mais cuidado, reconheceu os perigos que ela provocava. Nenhuma mulher estava segura. Compromisso era apenas uma palavra, nada mais.
A tarde, telefonou para o mdico e marcou uma consulta para a manh seguinte. O dr. Toomey era ginecologista e obstetra, porm, o histrico ginecolgico de Marion era to complexo e as horas que ela passara no consultrio haviam sido tantas que o dr. Toomey j a conhecia melhor do que qualquer outro mdico.
	Qual o problema, Marion?  indagou ele com um sorriso gentil.
	Acho qe andei trabalhando demais, doutor. Estou muito atarefada e agora com o casamento de Robyn...  Deu de ombros, esperando que o gesto explicasse mais do que palavras.  Gostaria que me desse algo para relaxar, um calmante fraco, talvez, pelo menos at minha vida voltar ao normal.
O mdico de cabelos grisalhos assentiu.
	Claro, claro. Mas primeiro quero que faa alguns exames. Nada para voc se preocupar, desejo apenas ter certeza do que devo lhe indicar. Quem sabe se voc no est com algum vrus extico que me tornar famoso?  ele brincou.
Marion sorriu e disse que faria os exames. Tinha certeza de que tratava-se apenas de um comeo de estafa, devido  situao que vinha vivendo ultimamente. To logo resolvesse a separao com Geoff, sua sade voltaria ao normal. Ainda assim, entendia a preocupao do mdico.
Marion no esperava receber os resultados dos exames nesse mesmo dia. Fora avisada de que alguns s seriam divulgados pelo laboratrio depois de dois ou trs dias.
Ficou ainda mais espantada com o que o dr. Toomey lhe disse. De fato, era a ltima coisa que ela esperava ouvir.
	Eu o qu?  perguntou ela, quase derrubando o telefone, devido ao susto.
	Parabns, Marion. Voc est grvida.

CAPITULO VII

Marion foi direto  clnica do dr. Toomey. 
 Deve haver algum erro, doutor. Ela apoiou as mos sobre a mesa, permanecendo de p. Ele encostou-se na cadeira e riu.
	No h nenhum erro, Marion. Voc j est com seis semanas de gravidez. Sente um pouco.
Ela continuou de p.
	Mas isso  impossvel!
	Marion, nunca foi impossvel. Apenas difcil.
Ela olhou para o estetoscpio pendurado no pescoo dele, sem conseguir raciocinar direito.
	Tem certeza?  indagou num fio de voz.
	Absoluta.
Quando Marion deu por si, j estava sentada, aturdida demais para conseguir falar.
	Podemos realizar os exames novamente, se voc quiser, mas...
	Sim, eu quero. E esperarei o resultado aqui mesmo, se no se importar.
Ele deu de ombros.
	Se isso a fizer se sentir melhor.
Chamou uma enfermeira que conduziu Marion at uma das salas de exame. Poucos minutos depois, Marion voltou para o escritrio do dr. Toomey, mais ansiosa que nunca.
	Os problemas no estmago podem muito bem ser resultado do stress  ele admitiu , mas esto me parecendo mais os costumeiros enjoos matinais que ocorrem no incio da gravidez. Minha opinio  que est havendo uma combinao das duas coisas.  Pegou a caneta e um bloco.	
Vou lhe passar um remdio. Vai aliviar essa sensao, mas no  um tranquilizante. Prefiro que voc faa um esforo espontneo para relaxar. D uma parada algumas vezes durante o dia, caminhe, oua msicas suaves... qualquer coisa que a deixe relaxada. Ao mesmo tempo, elimine tudo que provoca cansao: cafena, horas extras de trabalho, coisas desse tipo.
Marion continuou olhando-o, emudecida de espanto. Seu mdico ficara maluco? Por que insistia nessa histria de gravidez?
O dr. Toomey sorriu.
	Se pudesse ver seu rosto agora, Marion... Desculpe, eu no deveria estar achando isso engraado. Sabendo o que j passou para conseguir engravidar, eu deveria ter dado a notcia de uma maneira diferente. Talvez seja melhor eu chamar Geoff tambm.
	No!
Embora no estivesse conseguindo raciocinar direito, Marion tinha certeza de que no queria Geoff participando disso.
	No precisa se desculpar, doutor  emendou.  Eu estou bem.
O mdico olhou-a com ar preocupado.
	Marion, posso ver que est apreensiva, mas nosso tratamento corrigiu os problemas que causaram seus abortos. No h motivo para duvidarmos de que voc poder carregar esse beb at o fim.
Esse beb? As palavras no pareciam fazer sentido aos ouvidos de Marion. No tivera um problema simples no tero; sabia que era praticamente estril.
A enfermeira retornou e colocou um papel diante do mdico. Sorriu para Marion, antes de sair. Ela inclinou-se para a frente, sentindo as mos midas de suor.
O mdico examinou o papel e assentiu, antes de entreg-lo a ela. A primeira palavra que Marion leu foi: "positivo".
Deus, no podia ser! No agora que ela e Geoff estavam prestes a se separar! Por que isso no acontecera h alguns anos, quando os dois queriam um filho desesperadamente?
	No entendo  sua voz saiu quase inaudvel.  Tentamos tanto! Fiz tratamento nas melhores clnicas de Boston...
	As vezes acontece assim mesmo, de repente. No  preciso que entendamos.

	Mas eu j havia desistido. E Geoff tambm.
O mdico olhou-a com sincera preocupao.
	Essa gravidez causar algum problema?
Marion sentiu o rosto esquentar.
	No, claro que no.
	Parece apreensiva.
	Bem,  que...
E o qu?, Marion perguntou-se. Bem, seu marido estava na Califrnia, explorando a rea onde iria trabalhar ao lado da mulher que o interessava. Com certeza, esse filho era a ltima coisa que ele iria querer no momento.
	Tivemos problemas para nos adaptar  ideia de no ter filhos  disse ao mdico.  Agora teremos de fazer todo o processo inverso.
O dr. Toomey sorriu com simpatia.
	Apenas mantenha em mente o quanto voc  jovem. Trinta e um, no ?
Marion assentiu.
	E Geoff est com trinta e trs. So jovens demais para pensarem que no conseguiro lidar com um beb. Recebi uma paciente na semana passada com quarenta e trs anos, grvida pela primeira vez. Estava to nervosa que mal conseguia permanecer sentada.
Marion sorriu. Contudo, no estava disposta a ouvir sobre outras mulheres. Pegou a prescrio mdica sobre a mesa.
	Ainda no  disse o mdico.  Tenho mais uma coisa para lhe receitar. Vitaminas.  Abriu uma gaveta e pegou uma folha de papel.  Tudo que voc precisa saber est aqui. Dieta, exerccios e outros detalhes.
	Obrigada.
Marion pegou os papis sem encar-lo. H haviam passado pela mesma situao duas vezes, no passado. Ela sabia o que esperar.
	Doutor, quero lhe pedir um favor  disse, tentando disfarar a tristeza.  Se vir Geoff, gostaria que no contasse a ele sobre minha gravidez. O mdico arqueou as sobrancelhas.
	Ele est em uma viagem de negcios e s voltar na tera-feira. Mas quando ele voltar, por favor... Geoff anda muito ocupado com a Seatham no momento.  Ela desviou a vista.  Ele tambm tem outras preocupaes, alm de uma deciso importante a tomar quanto  carreira. No quero preocup-lo ainda mais. Prefiro esperar para contar depois.
O mdico inclinou a cabea.
	No vejo no qu isso poder preocup-lo. Pelo contrrio, creie que a notcia o deixar mais animado.,
	No  Marion insistiu.  Conheo Geoff. Isso o distrairia e no momento ele no pode se distrair com outros assuntos.
	Ok, no se preocupe. Conte a ele quando achar que deve.
	Obrigada  Marion respirou aliviada.
O mdico ficou de p.
	Marque visitas mensais com a minha recepcionista, agora na sada. Preciso examin-la regularmente.
	Est bem.
Marion saiu do consultrio com as pernas trmulas, ainda sem acreditar direito no que estava acontecendo. Ligou o carro e saiu sem saber ao certo para onde ir.
Dirigiu sem destino durante meia hora. Todavia, quando deu por si, estava diante da propriedade dos Powell. O n em sua garganta a estava deixando quase sem ar. Precisava conversar com algum e tirar um pouco desse peso de seus ombros.
Mas como poderia bater  porta de Bronwyn depois de tudo que dissera a ela na semana anterior? Alm disso, o que esperava obter dando a notcia a ela? Solidariedade? Encorajamento? Bronwyn no lhe daria nenhuma dessas coisas. Com certeza, sua amiga comearia um discurso de como a gravidez era um sinal de que Geoff e ela deveriam ficar juntos.
Por fim, como j acontecera vrias vezes, Marion foi at a praia e escalou a colina Mattasquamicutt. Ali, sentada em sua pedra favorita, ela olhou para o mar, deixando os pensamentos flurem. Agora tudo fazia sentido. Sua insnia, os enjoos e, claro, seus recentes acessos de choro.
Aos poucos, sua tenso foi se amenizando e uma sensao de paz foi preenchendo seu corao. Estava esperando um filho.
Tomando conscincia real do fato, pousou as mos sobre o ventre, sentindo os olhos se encherem de lgrimas. Estava grvida. Carregava uma nova vida dentro de si.
Sorriu e chorou ao mesmo tempo, aliviada por no haver mais ningum na colina para testemunhar sua maluquice. Deslizou uma mo sobre o ventre, imaginando se a notcia poderia trazer uma nova perspectiva para seu casamento. Porm, afastou a ideia logo em seguida. Era responsabilidade demais para se transferir a uma criana. Se ela prpria, sem um filho, no pudera manter o interesse de Geoff, com uma criana no seria diferente. No queria Geoff junto de si por um senso de obrigao.
Principalmente agora, que ele recebera essa tima oferta da Seatham. Estava to ansioso para comear a trabalhar na costa oeste que viajara para l sem pens.ar duas vezes. No ficaria surpresa se eleja estivesse procurando um apartamento. Se fosse obrigado a permanecer na cidade, ficaria ressentido no apenas com ela, mas talvez at com a criana.
No caminho de volta, comprou os remdios em uma cidade vizinha, onde ningum a conhecia. Ao chegar em casa, colocou o jantar para esquentar no microondas e foi telefonar para a me. Contou as novidades sobre o casamento de Robyn. A certa altura, pensou em dar a notcia de sua gravidez, mas o receio a deteve. Melhor que ningum soubesse, por enquanto.
Aps desligar, pegou o jantar e sentou-se diante da tev. Disse a si mesma que no estava sozinha nem sentindo medo de nada. Experimentara essa mesma sensao inquie-tante muitas vezes nos ltimos meses.
Porm, agora ela parecia ainda mais aguada. Sua solido parecia mais pesada; ligada, de alguma maneira,  vida que ela agora carregava dentro de si.
De sbito, a imagem do noticirio chamou sua ateno. Falavam sobre a controvrsia a respeito da Corporao Seatham. Surpreendeu-se ao ver a imagem de Geoff sentado em um ptio com vista para o mar, os cabelos agitados pelo vento.
Marion abaixou o garfo devagar, engolindo a comida com dificuldade. Geoff observava o local do novo empreendimento da empresa. Ningum com certo destaque na cidade estava livre de aparecer nos programas do canal WETE, que exibia as notcias de interesse da comunidade local. Porm, para Marion, estava sendo estranho ver uma imagem de Geoff vinda da outra costa do pas.
As notcias que Geoff revelou com seu tom calmo e confiante deveria ter deixado Marion irritada. Nesse mesmo dia, a Seatham oferecera  cidade de Eternidade a quantia de duzentos e cinquenta mil dlares para serem gastos com o ensino local. Claro que tratava-se de uma estratgia para contarem com a aprovao da cidade. A empresa mudara o nome do local da construo para Fazenda Saltmarsh.
Marion deveria estar furiosa. A Seatham estava praticamente oferecendo um suborno  cidade. Todavia, ela no sabia o que pensar. Geoff estava magnfico na tev. Ele tinha uma presena e tanto.
Observou o sol refletindo-se nos cabelos dele, o rosto de traos atraentes... Perguntou-se como algum dia pudera fingir para si mesma que gostaria de se separar desse homem. Ele era seu marido, amante e melhor amigo.
Sem notar o que estava fazendo, aproximou-se da tev e tocou a tela com a ponta dos dedos.
 Estou grvida, Geoff sussurrou.  Estou esperando um filho seu.
Porm, a imagem de Geoff desapareceu. Marion desligou a tev e o silncio voltou a invadir a casa.
Geoff nunca se sentiu to feliz em voltar para casa. Aqueles cinco dias mais pareceram uma eternidade. Sentira falta da Nova Inglaterra. As rvores, as construes em estilo antigo, tudo aquilo j parecia fazer parte de sua vida. Pagou o txi e subiu os degraus da varanda rapidamente.
No fora a melhor viagem que j realizara. Ficara sabendo de algumas notcias preocupantes enquanto estivera fora. Tiffany recebera uma proposta de transferncia para o mesmo projeto. Se ele aceitasse o emprego, os dois trabalhariam juntos. Por que ningum lhe dissera isso antes? Por que ela no dissera? Porm, o que mais o deixou irritado foi a suspeita de Tiffany haver dado a notcia a Marion com uma inteno maldosa.
Chegara a essa concluso na noite anterior. No conseguira esquecer o comportamento estranho de Marion e por fim surgira a resposta: Tiffany contara a Marion quando se encontraram no restaurante. E, com certeza, destacara o detalhe de que os dois trabalhariam juntos. O comportamento de Marion mudara radicalmente depois do encontro com Tiffany, no restaurante. O que ele interpretara como indiferena fora na verdade mgoa por ela haver recebido a notcia atravs de outra pessoa.
Geoff ainda no sabia o que faria para consertar a situao, mas ainda lhe restava uma ponta de esperana. A fria de Marion indicava que ela ainda se importava com ele, de alguma maneira.
Encontrou-a na sala de jantar, falando ao telefone e limpando a janela ao mesmo tempo. Ao ouvi-lo se aproximar, ela virou. Foi ento que Geoff se deu conta de que sua saudade no se restringia apenas  cidade e suas paisagens. Sentira falta de Marion.
	Oi  ele sorriu.
	Oi.
Marion continuava to bonita quanto no dia em que ele a conhecera. Sentiu uma imensa vontade de abra-la e beij-la como costumava fazer quando voltava de alguma viagem, h alguns anos. Por um momento, pareceu at que era isso que ela esperava. Porm, essa impresso logo se foi e o peso da realidade voltou num piscar de olhos.
	Preciso desligar agora, Juliana. Geoff acabou de chegar. Obrigada pela ajuda. Voltarei a ligar. Tchau.
Ela desligou e voltou-se para Geoff.
	Como foi a viagem?
	Boa.
	Apenas boa?
	Sim. Fiz tudo que precisava fazer.  Percorreu a vista pelo aposento. Estava sem cortinas e os mveis haviam sido mudados de lugar.  O que est acontecendo?
	Oh, estou preparando a casa para a recepo.
	Marion, ningum vai se importar se as janelas estiverem lavadas ou no.
Deixou a pasta e o palet sobre uma cadeira.
	Eu sei.
	Sei que voc sabe, mas vai revirar a casa mesmo assim, no ?
Marion deu de ombros.
	A sra. Souza no pode fazer isso?  indagou Geoff, referindo-se  mulher que fazia limpeza na casa duas vezes por semana.
	Oh, ela est me ajudando, mas  que h muita coisa a ser feita.  Marion recomeou a limpar a janela.  Ento, o que fez durante a viagem?
	No muito. Alguns trabalhos de cunho legal, s isso. Muitos elogios e jantares com pessoas enfadonhas. Marion, viajei durante todo o dia. No quero falar sobre trabalho agora.
	Tudo bem.
O tom de Marion convenceu Geoff de que ela sabia sobre a proposta de emprego. Puxou uma cadeira e sentou, esticando as pernas.
	Era Juliana Van Bassen ao telefone?
	Hum-hum.
	Negcios do casamento?  Geoff persistiu.

	Sim.  Aps um instante de silncio, Marion acrescentou:  Liguei para perguntar se ela poderia arrumar as flores, mas a loja j tem dois casamentos para atender
no mesmo dia. Ento ela me indicou outra pessoa que est comeando no ramo de flores.
	Oh, isso no  bom. As irms Van Bassen so as melhores nesse negcio, no?
Marion hesitou, olhando-o por sobre o ombro.
	Sim, elas so as melhores  admitiu.  Se fossem apenas alguns vasinhos de mesa, eu no estaria preocupada, mas temos toda uma casa para enfeitar, Geoff. Eu queria fazer algo especial.  Terminou de secar a janela e virou-se para ele.  Juliana me deu algumas ideias e ofereceu o material da floricultura para eu usar como quiser.  Mordeu o lbio, pensativa.  Est com fome?
	Faminto.
	Tem torta de frango na geladeira.
	Pode deixar que eu pego  Geoff asseverou.
Marion o seguiu mesmo assim. Geoff surpreendeu-se.
Acostumara-se a comer sozinho nos ltimos tempos. Enquanto ele tomava um pouco de suco, Marion preparou o prato e colocou-o no microondas.
	Como est o restante dos preparativos?  perguntou ele.
	Estou conseguindo as coisas aos poucos. Ainda no temos a banda; essa  a parte mais preocupante. Por outro lado, os Silva podero nos atender.
	A est! Aposto que a comida estar to boa que os convidados nem notaro a falta da msica  Geoff brincou.
	No conte com isso.
Marion encostou-se na pia, passando a mo em crculos pelo abdmen. Geoff franziu o cenho.
	Seu estmago ainda a est incomodando?
Marion retirou a mo no mesmo instante.
	Uh... no, no.
Ao sinal do microondas, ela se apressou em retirar o prato.
	Com licena, mas ainda tenho algumas cortinas para passar, ok?
Dizendo isso, Marion se retirou. Ao notar a atitude estranha da esposa, Geoff perguntou-se mais uma vez o que haveria feito de errado.

CAPITULO VIII

Geoff ficou de mau humor durante o resto da semana, permanecendo no trabalho quatorze ou quinze horas por dia. No pouco tempo que passavam juntos, ele e Marion ficavam em silncio.
Marion tentou ignor-lo. Tinha desenhos de jias para fazer, uma loja para administrar e um casamento para organizar. Alm disso, a reunio especial da cidade j estava se aproximando, havia as reunies de emergncia do Comit do Espao Aberto e uma visita programada a Hannah Bor-den, como uma ltima tentativa de convenc-la a no vender a fazenda. Porm, a visita serviu apenas para deixar Hannah ainda mais decidida.
Como se no bastasse tudo isso, tambm havia a gravidez. Poderia at no carregar essa criana at o fim, mas enquanto ela estivesse em seu ventre, Marion estava determinada a cuidar bem dela. Precisava lembrar de tomar as vitaminas, comer bem e seguir as instrues do mdico.
Tentou ignorar a presena de Geoff, dizendo a si mesma que no se importava com ele. S que seus esforos foram em vo. Geoff no saa de seus pensamentos. No importava o que fizesse, ele estava sempre em sua mente.
Geoff continuava aborrecido, mas ela no entendia muito bem por qu. Talvez fosse o fato de ela haver descoberto sobre a oferta de emprego na Califrnia antes de ele decidir contar. Provavelmente, Geoff esperava manter isso em segredo, assim como seu envolvimento com Tiffany, at depois da separao. Ele podia estar pensando que ela usaria a informao como prova de infidelidade, no tribunal. Todavia, isso nem passara por sua mente.
Marion estava to absorta com tais pensamentos, enquanto se dirigia ao mercado para fazer compras, que nem viu a porta do local abrir de repente, dando passagem a Bronwyn.
	Terra, chamando Marion  Bronwyn brincou.
Marion pestanejou, sentindo vontade de se enfiar no cho.
H duas semanas que ela e Bronwyn no se falavam.
	Oi, Marion. Como tem andado?
Se sua amiga ainda estava aborrecida ou magoada, no demonstrou.
	Ocupada.
	Posso imaginar. Organizar casamentos  algo meio complicado. Como esto os preparativos?  Bronwyn indagou com gentileza, apesar da afronta de Marion em no haver procurado a Casamentos, Ltda., depois da discusso.
	Estou conseguindo organizar as coisas aos poucos. Resolvemos oferecer a recepo l em casa mesmo.
Marion evitou encarar a amiga. Bronwyn tinha uma incrvel habilidade para ler o olhar das pessoas, e a ltima coisa que Marion queria demonstrar era o quanto tivera trabalho ao procurar outro lugar para a recepo.
	Conseguiram alugar uma tenda?
	Sim.
	Otimo. Nessa poca do ano, isso nem sempre  fcil  Bronwyn comentou.  E a msica? J contrataram uma banda ou Robyn prefere um disc jockey?
Marion perguntou-se como Bronwyn conseguira tocar justamente no assunto em que ela estava tendo mais dificuldade. De fato, com uma semana de prazo, at o casamento, j estava comeando a entrar em pnico a respeito desse detalhe.
	Hmm, andei falando com alguns lderes de banda.
S no contou que os tais lderes eram um adolescente de dezessete anos com uma ampla coleo de msica rap e uma mulher de rosto rosado, com um acordeo e um tambor.
	Tenho certeza de que aparecer algo bom para voc.
"Oh, sou mesmo uma idiota!", Marion repreendeu-se. No merecia ter uma amiga como Bronwyn.
	Bem, preciso ir andando  anunciou Bronwyn, comeando a seguir em frente.
	Bron?  Marion chamou-a num impulso.
	Sim?
	Desculpe pelo que eu disse naquele dia.
	No tem importncia  Bronwyn sorriu.
	Eu no devia ter dito aquelas coisas sobre a capela e a lenda.
"Mesmo ainda acreditando em tudo que disse", pensou consigo.
	No precisa se desculpar. Levando-se em conta o que anda acontecendo em sua vida, um pouco de rancor  perfeitamente normal.
Marion sentiu como se um enorme peso houvesse sido tirado dos seus ombros. Bronwyn aproximou-se um pouco mais.
	Como esto as coisas entre vocs, minha amiga?
Marion mordeu o lbio. Tantas coisas haviam mudado
em duas semanas! Geoff estava se mudando para a Califrnia e ela estava grvida.
	Do mesmo jeito  disse a Bronwyn.
	Ento, voc e Geoff no usaram esse tempo para acertar as diferenas?
	No.
Bronwyn pareceu frustrada e prestes a proferir um conselho, porm, tudo que disse foi:
	Gostaria de poder fazer alguma coisa.
As duas se despediram, mas depois de alguns passos, Bronwyn virou-se novamente:
	Hei, Marion? Se precisar de alguma ajuda com o casamento...
Marion hesitou um instante, ento sorriu, deixando o orgulho de lado ao responder:
	Pode me conseguir uma boa banda?
Bronwyn sorriu com simpatia.
	Ligarei para voc essa noite.
O tempo tornou-se bastante quente durante a semana. Sentado no escritrio, resfriado pelo ar condicionado, no sbado  tarde, Geoff no conseguia parar de pensar em
Marion. Quando sara de casa, pela manh, ela j estava no jardim, aparando a grama.
Perguntara o que ela estava fazendo e recebera uma resposta indelicada:
	O que voc acha?
Bem, talvez tenha merecido a rplica malcriada, pois sua pergunta exata fora:
	O que diabos est fazendo?
	Hei!
Geoff sobressaltou-se. Estava to absorto em seus pensamentos que no ouvira ningum subir a escada.
	E isso que voc faz o dia inteiro?  Graham encostou-se na porta.
Geoff tirou os ps de cima da mesa.
	Pego em flagrante  brincou.
Graham entrou na sala cercada de livros.
	Puxa, isso aqui est uma verdadeira sauna  comentou ele.
	Tem razo. Acredita que Marion est fazendo trabalho de jardinagem nesse calor?
Droga, no conseguia nem comentar o tempo sem mencionar o nome dela!
	 mesmo? E como esto as coisas entre vocs?
	No muito boas.
	Quer conversar a respeito?
	No.  Geoff ficou de p, comeando a andar de um lado para outro.  No sei. Oh, droga!  Parou de repente. 
 Tem ideia do que Marion fez comigo essa semana?  Contou a Graham que encontrara um livro a respeito de divrcio sobre a mesa dela.  Senti-me como um lixo do qual ela no v a hora de se livrar  disse, por fim.
Graham ouvira tudo com tanta pacincia que Geoff surpreendeu-se quando ele falou:
	E por que voc acha que Marion fez isso?
Geoff sorriu com ironia.
	Quando perguntei o que era aquilo, ela disse que achou que eu me sentiria melhor se abordssemos logo esse assunto.  Balanou a cabea, incrdulo.  A questo  que Marion mal pode esperar para me tirar da vida dela.
	E como chegou a essa concluso?
	Oh,  uma longa histria.
	No estou com pressa.
Geoff suspirou.

	Ok, a verdade  que no contei a Marion sobre a oferta de trabalho que recebi da Seatham, mas durante essa mesma conversa sobre o divrcio, ela revelou que descobrira tudo.
	E ficou furiosa?
	Antes fosse.
	Magoada?
	Huh! Pelo menos isso mostraria que ela se importa comigo de alguma forma. Porm, assim que ficou sabendo da oferta, aposto que pensou: "Otimo, estou prestes a me livrar dele. Vamos comear a falar de divrcio".
	Ela deduziu que voc pretende aceitar a oferta?
	Est esperanosa, aposto.
	Tem certeza?
	No sei  respondeu Geoff, irritado.  Cheguei a afastar essa ideia, mas agora... No sei.
Olhou para a joalheria de Marion, atravs da janela. Deus, como sentia falta dela. Essa era a parte mais maluca de toda a histria: quanto mais ficava furioso com Marion, mais a saudade apertava.
	E como ela descobriu, Geoff?
	Sobre o emprego? Tiffany contou a ela.
Graham ficou quieto um instante.
	Eu avisei que essa mulher era sinnimo de problemas.
	No, no. Foi apenas um incidente. Tiff pensou que eu j havia dado a notcia a Marion.
Essa era a verdade, Geoff disse a si mesmo. E claro que o fato de preferir no mencionar que Tiffany tambm recebera a oferta para trabalhar na Califrnia no tinha importncia.
	E no v nenhuma ligao entre os fatos?  Graham insistiu.
	No. Cheguei a pensar que houvesse, mas no. Pouco importa quem deu a notcia a Marion, o fato  que ultimamente ela anda se apegando a qualquer coisa que me afaste dela.
Graham balanou a cabea.
	Diga-me uma coisa, meu amigo, e o que voc tem feito para impedir que ela faa isso?
Seguiu-se um silncio inquietante. Geoff olhou atravs da janela, enquanto Graham esperava uma resposta.
	V para casa, Geoff.  Graham dirigiu-se  porta.  Seja gentil com sua mulher. Voc sabe o que ainda sente por ela.
Geoff apenas assentiu. Estava confuso, desorientado.
Marion tirou a luva de jardinagem e franziu o cenho ao olhar para o relgio.
	Por que chegou to cedo?
	Que horas so?  Geoff perguntou, aproximando-se.
	Trs.
	Sempre chego em casa por volta das trs aos sbados.
Marion sabia disso, mas pela maneira como Geoff vinha se comportando ultimamente, ela no o esperava antes da noite.
	O que est fazendo?  indagou ele.
Marion olhou para ele. Falara num tom gentil, embora no a estivesse encarando. Acostumara-se tanto ao silncio rancoroso de Geoff que nem soube ao certo o que responder.
	A tenda chegar na quarta-feira  disse, por fim.  No posso esperar que a temperatura diminua. O servio de jardinagem precisa ser feito logo.
Geoff tirou a gravata.
	Por que a tenda ser entregue to cedo?
	Quer mesmo saber?
	Hum-hum.
	A instalao  demorada, e tempo  algo que quase no teremos durante o resto da semana. Tenho mil coisas para organizar, os parentes comearo a chegar...
Geoff fitou-a com olhar intenso. Marion sentiu-se pouco  vontade. Deveria estar com uma aparncia horrvel sob aquele sol escaldante.
	Virei para c assim que trocar de roupa  ele anunciou.
	Vai me ajudar?
	Sim. Estamos juntos nessa histria de casamento, no ?  Geoff suspirou, tornando-se srio.  Desculpe se a deixei com a maior parte das responsabilidades at agora. No importa o que est acontecendo com o nosso casamento. Assumimos esse compromisso com Robyn e Nate e precisaremos cumpri-lo.
	Tem razo  Marion concordou.
Geoff respirou fundo.
	Agora pare de cortar essa grama e se concentre nas flores. No sou muito bom em lidar com elas.
Marion sorriu pela primeira vez.
	Voc sempre foi um desastre em matria de jardinagem.
Obrigado pelo elogio  Geoff brincou.
Encaminhou-se para a casa, deixando Marion mais confusa do que nunca.
Geoff passou o resto do dia aparando a grama e indo  floricultura da cidade, comprar as coisas de que Marion precisava. Deu graas pela atividade fsica, mesmo em meio ao calor opressivo. Raquetebol e musculao no estavam sendo suficientes nos ltimos dias. Sentia falta de respirar ar puro, ouvir as guas do rio prximo, sentir o sol nas costas nuas e, principalmente, ter Marion perto de si.
No momento ela estava adorvel, ajoelhada em meio s flores. Usava o chapu de sol, mas mesmo assim seu rosto estava corado, devido ao calor. Marion detestava as leves sardas que tinha no rosto, porm Geoff sempre apreciara o modo como elas a deixavam com ar de menina. Certa vez, dissera at que eram sexy.
	Sardas podem ser muitas coisas, Geoff, menos sexy  Marion replicara.
No conversaram muito enquanto trabalhavam. Geoff deduziu que Marion tambm queria evitar a abordagem do divrcio por enquanto.
Quando ela inclinou-se para a frente, enquanto cavava o solo, o short subiu um pouco, denunciando as pernas esguias.
Geoff engoliu seco. Sem querer, seus olhos se voltaram para os seios firmes, pressionados contra o top que ela estava usando. Notou que eles pareciam mais volumosos nos ltimos dias, mas talvez fosse apenas impresso sua.
O calor continuou a assolar Eternidade durante a noite. Marion virava de um lado para outro, na cama, procurando um lugar mais frio.
Apesar de a janela estar aberta, no entrava nenhuma brisa para refrescar o quarto. Ela tentou se concentrar nas tarefas do dia seguinte, mas nem isso foi possvel.
Deitou de costas, estendendo os braos e as pernas. O vero era uma poca muito sensual, pensou ela, aspirando o aroma de flores vindo do jardim.
Quando deu por si, seus pensamentos j estavam centrados em Geoff. Lembrou do quanto ele parecera atraente no jardim, com o sol refletindo-se no suor de suas costas.
Marion virou de lado. J eram duas da manh e ela nem sequer cochilara. E o pior era que Geoff parecia estar to acordado quanto ela, no outro quarto. Deveria ter concordado quando ele sugeriu que mandassem instalar um ar condicionado na casa. No importava que a Nova Inglaterra tivesse poucas noites assim. Quando se passava por uma delas, todas as outras tornavam-se insignificantes.
Passou a mo pelo rosto suado e foi descendo at tocar o ventre. Seu filho continuava ali, com o coraozinho pulsando dentro dela.
Oh, Deus, ser que ela conseguiria carreg-lo at o fim?
Na opinio de Marion, a segunda-feira chegou rpido demais. No estava com vontade de comparecer  reunio da cidade. Sua expectativa vinha aumentando h semanas e ela realmente no queria estar por perto quando a bomba estourasse.
No gostava de controvrsias. Claro que se importava com o assunto e tinha uma opinio formada a respeito, mas quando se tratava de debate pblico, sentia-se como um peixe fora d'gua. Ao entrar no prdio do colgio, indo direto ao auditrio, imaginou se no estaria ficando maluca.
Localizou Geoff quase em seguida, em meio ao grupo da Seatham. Como no poderia deixar de ser, Tiffany tambm estava presente.
No queria odiar essa mulher, mas, Deus, como isso seria possvel? Tiffany era linda, inteligente e lhe roubara Geoff.
Surpreendeu-se ao notar que Geoff olhava em sua direo. Fitou Tiffany um instante, mas voltou a olh-la, parecendo confuso. Marion abaixou a vista, tratando de se concentrar nos papis que lhe haviam sido entregues por um dos membros do Comit do Espao Aberto, embora no estivesse com a mnima vontade de l-los.
O auditrio logo ficou cheio, aumentando o barulho. Os coordenadores da reunio tomaram seus lugares  mesa.
O vice-presidente da Seatham, que encabeava o projeto de eternidade foi o primeiro a falar. Marion ouviu o discurso sobre os vinte anos de tradio da empresa, mas sabia que tudo aquilo no passava de balela.
Quando ele deixou o microfone, anunciando o discurso de Geoff e do arquiteto, o silncio no auditrio tornou-se ainda mais intenso. Ficou claro que todos consideraram esse o verdadeiro incio da reunio. Embora estivesse do lado adversrio, Marion no pde deixar de sentir-se orgulhosa por Geoff.
Pediu que as luzes fossem diminudas e, nos quinze minutos seguintes, ele e o arquiteto explicaram uma srie de slides, incluindo fotos areas e mapas topogrficos, assim como os benefcios que o projeto traria  cidade.
Logo aps a apresentao, comearam as perguntas vindas do auditrio. O grupo de Marion continuava em silncio, mas ela sabia que chegaria o momento de eles se manifestarem.
Finalmente, algum perguntou o que a Seatham pretendia fazer com os duzentos acres de floresta que cercavam a rea onde ocorreria a obra. Marion trocou olhares com os colegas.
	Geoff?  indagou o moderador da mesa, indicando o microfone.  Ou algum outro.
Pela primeira vez, Marion notou certa hesitao em seu marido. Todavia, ele ficou de p e procurou uma imagem que mostrava uma vista area de toda a fazenda.
	Como j foi explicado, todas as unidades residenciais ficaro dentro dessa rea.  Indicou o local.  Incluindo as piscinas, a quadra de esportes e a de tnis. Todo o restante permanecer como est, exceto pelo projeto cuidadosamente estudado, atravs do qual sero construdas trilhas para passeios a p e de bicicleta.
Marion viu quando Tiffany o chamou. Geoff inclinou-se e ela sussurrou algo ao ouvido dele. Marion cravou as unhas nas palmas das mos, assaltada por uma onda de cime.
	Em dias especficos  Geoff continuou , essas trilhas sero abertas para o pblico em geral, totalmente de graa.
Marion encolheu-se. Pelos murmrios que se seguiram, a sugesto pareceu ter sido bem aceita.
No mesmo instante, o chefe do Comit do Espao Aberto, um jovem advogado, recm-formado, ergueu a mo.
	Isso parece maravilhoso  disse ele num tom sarcstico.  Mas diga-me uma coisa, que garantias ns teremos de que Seatham nunca construir na rea da floresta? Depois que o local pertencer  empresa, quem nos garante que vocs no expandiro o plano original e construiro prdios em toda a rea da fazenda?
Curiosa, Marion observou Geoff entregar o microfone ao diretor financeiro do projeto.
	Simplesmente isso no traria vantagens para ns.
Explicou os problemas que teriam com a manuteno de uma rea completamente construda.
	S que minha pergunta continua sem resposta  o advogado insistiu.  Que garantia temos de que a rea da floresta permanecer intacta?
	As leis de preservao restringem nossos planos naquele local. Essas leis serviro como garantia para vocs.
	Sim, na teoria so leis maravilhosas, mas que s se aplicam para a rea a ser construda. E quanto  floresta?
Pela primeira vez na noite, Tiffany ficou de p e se apresentou. Sua voz saiu autoritria, como se ela estivesse perdendo a pacincia com aquelas pessoas incapazes de enxergar o bvio.
	Como advogada da empresa Seatham, fui autorizada a acrescentar uma clusula ao nosso projeto, declarando que no desenvolveremos nada naquele local atualmente, nem no futuro.  Dirigindo-se ao advogado, ao lado de Marion, acrescentou:  Isso responde sua pergunta?
A advogado assentiu, embaraado. De sbito, um pensamento ocorreu a Marion, algo que, a princpio, ela preferiu ignorar. No gostava de falar nessas reunies, mas, pelo visto, sua ideia no ocorrera para mais ningum.
Ergueu a mo com uma sensao de ansiedade. Aps receber um sinal de que poderia falar, ficou de p, apoiando as mos no assento da frente.
	Tambm teremos uma garantia de que a Seatham no vender aquelas terras para mais ningum? Outra em preiteira, por exemplo?
Voltou a sentar, ouvindo comentrios paralelos. Notou o olhar malicioso que Tiffany lhe lanou. Tambm tornou-se ciente da ateno de Geoff. Antes que a advogada pudesse dizer algo, ele ficou de p e pegou o microfone da mo dela.
	Infelizmente no estamos autorizados a oferecer essa garantia.  Olhou para o moderador da mesa.  Isso porque tal suposio nunca ocorreu  Seatham. Espero que a cidade encare esse detalhe como prova das boas intenes da empresa.
Marion enrubesceu. Esse sempre fora seu maior receio. Temia que a questo final recasse sobre ela e Geoff. Quando deu por si, j estava de p.
	Porm, persiste o fato de que no teremos nenhuma garantia escrita, certo?
Geoff fitou-a com um olhar exasperado. Comeou um discurso cheio de jarges e menes de casos antecedentes. Marion demorou algum tempo para entender o que ele estava fazendo. Geoff tentava livrar a Seatham desse compromisso. Antes mesmo de ele terminar, Marion percebeu que as pessoas j haviam sucumbido  competncia de Geoff.
O moderador percorreu a vista pelo auditrio.
	Mais alguma pergunta? Comentrio, opinio?
Marion levantou a mo mais uma vez.
	Em nome do Comit do Espao Aberto, tenho alguns comentrios a fazer. Creio que todos j esto cientes da nossa posio, todavia gostaria de repeti-la mesmo assim. Um dos mandados do nosso comit  proteger as reas verdes da cidade. Na minha opinio, a Seatham representa uma grande ameaa a esse princpio. Embora tenha nos apresentado um projeto cheio de atrativos, temos que lembrar de que o local ser modificado e ningum aqui pode garantir que a rea continuar sendo a mesma depois da construo. Se a empresa possui membros to puros de corao, por que no nos do uma garantia? Depois que votarmos pela aprovao ou no do projeto, no haver mais volta. Quando as rvores houverem desaparecido, no adiantar dizer que cometemos um erro. O momento de verificar as consequncias  esse.
Quando ela sentou, recebeu aplausos de aprovao. O moderador ergueu a mo, pedindo silncio. Ento apontou para outra pessoa no auditrio.
	Sim, Hannah?
Marion virou e viu a sexagenria, Hannah Borden, ficando de p.
	Eu no quis falar at agora, mas no posso mais me conter  disse ela.  O que eu e minha famlia desejamos fazer com nossa propriedade no  da conta de ningum. Queremos vender a fazenda e pronto. O que mais me incomoda no momento  a oposio de pessoas que sempre considerei como vizinhas. Acho que elas deveriam se preocupar com seus prprios problemas, e no ficar usando esse assunto como um meio de confrontar os maridos.
Seguiu-se um vozerio misturado com risos disfarados.
	Obrigado, Hannah  o moderador interviu, embora a mulher continuasse de p.  Geoff?  disse rpido.
Geoff levantou da cadeira. As pessoas voltaram a ficar em silncio.
	Qualquer que seja o resultado dessa votao, quero lembrar a todos que as reunies da cidade so feitas em
face de divergncia de opinies. Embora eu e minha esposa no tenhamos o mesmo ponto de vista a respeito da questo, respeito o direito que ela tem de discordar. E se eu posso aceitar isso, creio que todos tambm devem fazer o mesmo.
Sentou-se em meio a novos aplausos.
	Acho que podemos comear a votao  anunciou o moderador.  Quem for a favor do empreendimento da Seatham, levante a mo, por favor.
Marion cruzou os dedos, enquanto alguns homens faziam a contagem.
Agora aqueles que forem contra  pediu o moderador.
Marion levantou a mo. Minutos depois, ele anunciou:
	A votao, senhoras e senhores, foi de 348 votos a favor e 321 contra.
O membros da Seatham comearam a se cumprimentar. Marion notou que Geoff limitou-se a recolher os papis.
	Marion, quer sair para tomar um drinque?  convidou algum ao lado dela.
	No, obrigada.
	Tem certeza?
	Sim.
	Nos veremos na prxima reunio, ento.
Marion no respondeu. Pegou a bolsa e saiu, apressada.

CAPITULO IX

Geoff sabia que Marion estava em casa. O carro dela se encontrava na garagem, mas ele no conseguiu encontr-la em nenhum dos aposentos. Por fim, olhou atravs de uma janela e vislumbrou uma silhueta parada  margem do rio. Tirou a gravata e atravessou o jardim, indo ao encontro dela.
Com certeza, Marion sabia que ele estava ali, entretanto, continuou de costas. Geoff insinuou-se entre duas rvores e levantou a vista para o cu estrelado. Nenhum dos dois falou nada. Continuaram ouvindo o som do rio, cientes da presena um do outro.
Quando no conseguiu mais suportar o silncio, Geoff perguntou:
	Como voc est?
	Vou sobreviver  respondeu Marion, atirando uma pedrinha no rio.  Por que no saiu para comemorar?
	Por que eu faria isso tendo a opo de ficar em casa com voc?
Marion apenas olhou-o por cima do ombro. Os outros haviam tentado persuadir Geoff a sair para comemorar, mas ele sentira uma imensa necessidade de estar com Marion.
	Vai voltar a falar comigo?  Geoff perguntou.
	Provavelmente no.
Geoff levou as mos  nuca e sorriu com ar triste. Notou que Marion estava prestes a explodir em lgrimas.
	No sei por que estou aqui, sentindo-me culpado pela vitria da Seatham. Sempre pensei que isso fosse trazer benefcios para a cidade...
Por que fez isso, Geoff?  Marion o interrompeu.
Ele sabia ao que ela estava se referindo e no tentou escapar da resposta:
	Tentei ficar fora, Marion.
	Mas no ficou. E quero saber por qu.
Geoff suspirou.

	Isso  o que eu fao. Querer que eu no aceite defender um de meus clientes seria o mesmo que impedir um peixe de nadar.
	Ou um tubaro de morder?
	Ou um tubaro de morder. Embora eu no goste da comparao. Vejo isso mais como um mandado tico.
	Tem certeza de que essa  a nica razo?
	Que outra mais poderia haver?
Marion ergueu o queixo.
	Bem, pareceu-me que voc no quis deixar Tiffany responder. Achou que ela no seria capaz de contestar minha argumentao? Fez aquilo para defend-la?
	O qu?!
	Ou estava apenas tentando provar sua competncia para o pessoal da Seatham?
	Droga, Marion! Eu no estava tentando provar nada, nem tampouco defendendo Tiffany!
	 mesmo? Ento o que estava fazendo?
	J passou pela sua cabea que talvez eu estivesse tentando proteger voc?
Marion virou-se para ele.
	Me proteger? De quem?  Quando ele no respondeu, ela se aproximou mais.  De Tiffany? Tentou me proteger de Tiffany?
	Talvez.
	Oh, timo. O que esperava? Uma briga de gatos?
	No sei o que eu esperava. S no queria que acontecesse algo desagradvel.
Marion cruzou os braos.
	Deixe-me ver se entendi direito. Deixou que eu fizesse papel de idiota na frente de todo mundo s para me proteger?
	Marion, no deixei que fizesse papel de idiota. Apenas respondi sua pergunta de uma forma simples, imparcial.
	Voc fez foi um discurso legal!  Marion protestou.  No foi simples nem tampouco imparcial!
	Marion, duvido que algum mais pense assim. Diga-me uma coisa: voc me respeitaria se no defendesse meu cliente?
	Criou toda essa confuso na minha cabea para que eu o respeitasse?

	Bem, mais ou menos. Funcionou?
Marion sobressaltou-se, incrdula.
	Voc  impossvel!
Ficou bvio que ela no estava a fim de levar nada na brincadeira. Geoff encostou-se em uma rvore e Marion voltou a observar o rio, iluminado pelo luar.
	Voc foi firme no seu papel, Marion.
Ela atirou outra pedrinha na gua.
	Sim, claro.

	E verdade. Sua dedicao foi mobilizadora e respeito isso. Eu...  Geoff hesitou. Quase dissera que sentira-se orgulhoso dela.  Fiquei tocado. Contudo, espero que nunca mais tenhamos que ficar de lados opostos novamente.
	 provvel que isso no volte a acontecer. Vou deixar o Comit do Espao Aberto.
	Por qu?
	Esse tipo de coisa no  para mim. Tremi feito vara verde na hora de falar.
Geoff sentiu que a confisso estava sendo dolorosa para ela.
	Eu sei. Mais um motivo para eu admir-la. Sabe, chego quase a lamentar o fim dessa luta. Gostei de nossos confrontos durante as reunies.
	Oh, claro. Pura diverso.
Geoff suspirou. Pelo visto, nada do que dissesse conseguiria anim-la. O mais irnico era que ele realmente gostara da competio. No notara isso at essa manh, quando ela terminara. Bem, talvez no a competio em si, mas o fato de ver Marion envolvida em um assunto ligado  sua profisso. Agora, o nico elo que restava entre eles era o casamento de Robyn. E depois do sbado, no restaria mais nada.
	Geoff, realmente me importo com aquela fazenda.
	No se preocupe. A rea da floresta permanecer intacta.
	No pode garantir isso  lembrou ela.
Geoff respirou fundo.
	Talvez eu possa.
Marion virou-se devagar.
	O qu?
	Refiro-me apenas  rea da floresta. Creio que posso encontrar uma maneira de poupar aqueles duzentos acres de terra.
	Como?  Marion estreitou o olhar.
Geoff sorriu.
	Posso danar conforme vrias msicas, Marion. Conheo muitos passos.
Pensou que fosse anim-la, mas Marion lanou-lhe um olhar de desconfiana.
	Sabia todo o tempo que eles pretendiam devastar aquela floresta, no ?
Geoff ficou to espantado que s conseguiu balbuciar:
	No, eu...
	Ou vend-la, o que seria ainda pior. E mesmo assim voc preferiu defend-los e me fazer de idiota na frente de todos. Oh, mas que brilhante advogado voc ! Sabe mesmo danar? Ento acompanhe esse passo!
No instante seguinte, Geoff se viu no cho, aps receber uma rasteira inesperada.
No dia seguinte, Marion continuou furiosa com Geoff. Mesmo notando que ele sara do escritrio ao meio-dia, recusou-se a olh-lo. Estava do lado de fora da loja de noivas, arrumando com cuidado o vestido de Robyn no carro. Quando ele passou, ela limitou-se a erguer mais o queixo.
Geoff tambm no disse nada. Estava usando uma mu-nhequeira no pulso esquerdo, sinal de que sara machucado depois do incidente da noite anterior. Ao se aproximar, ele ergueu o pulso com exagero, fingindo olhar a hora.
Marion fechou a porta do carro e atravessou a rua em direo  loja de sapatos, para pegar o par que havia encomendado. A vendedora que a atendeu estivera na reunio da cidade. Pelo visto, todo mundo com quem Marion se encontrava comparecera quela maldita reunio. Claro que ela acabou abordando o assunto, apesar do evidente embarao de Marion.
	Lamento que seu partido no tenha vencido, Marion, mas preciso lhe dizer que aquele seu marido  um verdadeiro tesouro. A maneira como ele ficou de p e defendeu o seu direito de protesto foi realmente tocante. Pensei que ele fosse voar no pescoo de Hannah Borden.
Era a terceira vez que Marion ouvia o mesmo comentrio nesse dia. Sinceramente, estava ficando cansada deles.
O joalheria ficava ao lado da sapataria. Embora tivesse organizado a agenda de modo a no ter de trabalhar durante toda a semana, decidiu passar por l e ver como as coisas estavam indo. Talvez Lynn lhe dissesse algo diferente sobre a reunio.
	Oh, no vi a situao por esse lado  disse a moa depois de ouvir a verso de Marion sobre o discurso do marido.  Achei que Geoff foi muito corts e objetivo com voc.
Marion ouviu a mesma opinio durante toda a manh. Ao chegar em casa, comeou a se perguntar se no estaria ficando maluca. Teria entendido mal a defesa de Geoff com relao  Seatham? Admitia que as palavras sobre o direito que ela tinha de protestar haviam sido gentis, porm... No, ainda achava que tudo aquilo no passara de uma armao. Tinha todo o direito de continuar furiosa.
Como j se tornara um hbito, Marion reservou uma parte da tarde para descansar. Sentou em uma cadeira,  sombra de uma macieira, e fechou os olhos. Aprendera a meditar na poca da faculdade, mas deixara de faz-lo quando sua vida tornara-se agitada demais. Estranho como fora preciso a recomendao de um mdico para que ela voltasse a fazer aquilo de que gostava. Depois de uns vinte minutos, abriu os olhos devagar.
Deparou-se com Geoff sentado em uma cadeira bem diante dela. Ele a observava com o queixo apoiado na mo. Por um momento, ele pareceu fazer parte da paz que Marion sentia dentro de si. Isso a deixou surpresa, considerando o quanto ainda estava aborrecida com ele.
	Atrapalhei voc?  indagou Geoff.
	No.
	Est alerta?
Lembranas da noite anterior acabaram com os efeitos que a meditao havia surtido em Marion. Ela firmou os ps no cho.
	Sim  respondeu.
	Otimo, porque no quero ter de repetir isso. Primeiro, eu nunca pensei que a Seatham tivesse alguma inteno de mexer naqueles duzentos acres de terra. Segundo, se pensa o contrrio, e tenho certeza disso, pelo modo como est me tratando, ento no me conhece nem um pouco e temos um problema ainda maior do que imaginei. E terceiro, teremos um casamento aqui no sbado. Precisarei passar algumas horas no escritrio todos os dias, mas durante o restante do tempo estarei disponvel para ajud-la.
	timo!  Marion replicou.  Contudo, tem certeza de que poder ajudar com esse terrvel ferimento?
Geoff ignorou a provocao.
Apenas me faa um resumo de como esto os preparativos.
Marion inclinou-se, pegando um caderninho ao lado da cadeira. Ao levantar, notou o ferimento no pulso de Geoff.
	Oh, meu Deus...
Tentou toc-lo, mas ele afastou o brao.
	Os preparativos, Marion.
Ela encostou-se na cadeira.
	Ok.  Abriu o caderno, tentando se concentrar.  A tenda ser montada amanh. E as mesas e cadeiras tambm.
	Quer que eu faa alguma coisa enquanto isso?
	Bem, preciso que'v  floricultura dos Van Bassen e encha a Pickup com as palmeiras e plantas ornamentais que conseguir. Eles tambm mandaro algumas caixas com decorao para mim.
	Mais alguma coisa?
	Sim. Encomendei as bebidas tambm para amanh. Poderia traz-las?
	Ok. O que mais?
	Se puder suportar minha companhia  Marion ironizou , preciso de voc aqui para ajudar na arrumao dos enfeites e das mesas.
Mais uma vez, Geoff ignorou a provocao.
	E o que acontecer na quinta-feira?
	Mais ou menos o mesmo. O buffet entregar as porcelanas, talheres e outra coisas. Provavelmente ainda estaremos trabalhando na decorao.
	E quanto  minha roupa?
	Ficar pronta na sexta. Meus pais querem alugar um carro para visitar alguns amigos na prxima semana. Porm, teremos de buscar a famlia de Nate no aeroporto.
	Precisa de mim para isso tambm?
Marion estava ficando apreensiva com a insistncia de Geoff. No gostava dessa "guerra fria" entre eles.
	No  respondeu.  Nate e Robyn pretendem busc-los, antes de virem para c. Traro dois carros, para caber todo mundo.
	Oh? E quem  todo mundo?
	Os pais de Nate, a av, a irm, o cunhado e os dois filhos do casal.
	E toda essa gente vir para c?
	Sim, mas somente por um dia. Fizeram reservas no Hotel Haven.
	At Robyn e seus pais?
	Sim.
Geoff franziu o cenho.
	Mas eles sempre ficaram aqui quando vinham nos visitar.
	Eu sei, e espero que no fiquem magoados. Convidei-os para vir para c no sbado logo cedo, para trocarem de roupa e tirarmos algumas fotos.
	Marion, por que diabos voc no...?
	Pense, Geoff.
Ele voltou a franzir o cenho. Levantou a vista depois de alguns segundos. No se olharam diretamente, mas Marion percebeu que tiveram o mesmo pensamento: onde dormiriam se Robyn e os pais dela estivessem na casa?
	A famlia da noiva no costuma oferecer um ensaio da cerimnia na noite anterior ao casamento?  Geoff inquiriu.
	Sim, e depois os pais de Nate oferecem um jantar.
	Ok. Agora vamos ao dia D.
Marion suspirou. Geoff inclinou-se para a frente e olhou a pgina do caderno com os compromissos do sbado. Cabeleireiro, entrega de flores, chegada do bolo, fotgrafos, limusine, msicos e a comida.
	Tudo bem  disse ele.  A propsito, que banda voc contratou?
	Acreditaria se eu disser que os Honeymooners viro tocar?
	Est brincando! Como conseguiu isso? Ele no estavam escalados para outro casamento?
	Sim, mas Bronwyn ofereceu um desconto para o outro casal, se eles aceitassem uma banda diferente.
	E eles aceitaram?
	O desconto foi mais do que generoso  Marion sorriu.
Logo voltou a ficar sria.  Geoff, tenho algumas coisas a lhe dizer. Primeiro, desculpe por eu haver machucado seu pulso. No fiz de propsito, apenas estava furiosa. Segundo, chamei-o de tubaro e outras coisas, mas se acha mesmo que o considero um advogado desrespeitvel, ento  voc quem no me conhece nem um pouco. E terceiro... oh, esquea. J recapitulei o suficiente por um dia.
Um sorriso insinuou-se nos lbios de Geoff.
	Ah, Marion, no pode parar agora.
Ela olhou para o lado, contrariada.
	Est bem. Obrigada por defender meu direito de protesto naquela reunio. Agora, ser que podemos continuar com o mesmo nvel de civilidade da semana passada?
	Claro  Geoff assentiu.
Discutiram mais detalhes sobre os preparativos. Por fim, Geoff ficou de p.
	A que horas acha que a festa vai terminar?
	No tenho ideia.  Marion tambm ficou de p.  Depender de como estiver o tempo e a animao.
Geoff apertou os lbios. Parecia preocupado novamente. Marion deduziu que talvez ele no estivesse encarando o casamento como um evento para se divertir.
Bem, essa seria a ltima semana que passariam juntos.
	No sei se voc quer falar sobre isso agora...  Marion comeou com hesitao, enquanto voltavam para casa.
	Sobre a minha partida?
Ela assentiu. Ento ele estivera pensando sobre o mesmo assunto.
	Tudo bem para voc, se eu no partir at domingo?
 Geoff evitou encar-la.  Quero arrumar mais algumas coisas. Ou prefere que eu pegue a estrada assim que o casamento acabar?
Marion sentiu um n na garganta.
	Fique o tempo que precisar. Alguns dias...
	Um ser suficiente.
	Mas todos seus livros, as roupas...
	Mandarei algum vir buscar depois que estiver instalado em outro lugar.
Marion sentiu os olhos se enchendo de lgrimas. Piscou algumas vezes, tratando logo de afast-las. No era isso que ela queria. Mas como pedir para uma pessoa ficar quando o que ela realmente desejava era ir embora?
	Acha que tomamos a deciso certa?  arriscou.
Geoff pareceu parar de respirar um instante.
	Voc sabe  acrescentou Marion , essa histria de fingirmos que est tudo bem.
	Oh, isso. Sim, foi a deciso certa. Pense na outra alternativa, Marion, e no quanto seus familiares ficariam arrasados. Acabaramos estragando o casamento de Robyn.
Ela mordeu o lbio.
	Mas acha que conseguiremos lidar com isso at o fim?
Convenceremos todo mundo de que ainda formamos um casal feliz?
Geoff no respondeu de imediato.
	No tenho certeza  disse, por fim, balanando a cabea.
A resposta deixou Marion mais apreensiva do que ela gostaria de admitir.
Felizmente, Geoff s tinha um cliente na sexta-feira de manh. Assim que o dispensou, fechou o escritrio, preparando-se para sair. Os parentes dos noivos chegariam por volta do meio-dia e ele ainda tinha algumas coisas para fazer.
Em meio  correria, olhou para o porta-retrato sobre a mesa. Mostrava uma foto dele e Marion, tirada alguns anos antes, em uma reunio de famlia. Surpreendeu-se ao ver que o vidro estava rachado.
 Droga  sussurrou.
Sempre gostara muito daquela foto. Observou o lindo sorriso de Marion e aqueles olhos incrivelmente azuis. De sbito, sentiu um n na garganta.
Morar com ela nas ltimas trs semanas estava sendo mais difcil do que ele imaginara. Difcil para seu corpo, sua mente, sua alma. No queria partir. Mas como pedir para ficar quando uma pessoa realmente desejava que voc partisse?
Marion parecia estar aceitando a situao muito bem. Andava meditando, comendo bem, trabalhando menos no escritrio... Nada a afetava.
Exceto Tiffany. Marion ainda ficava com um brilho de fria no olhar quando Tiffany telefonava para lhe transmitir alguma informao. Geoff j desistira de tentar provar o contrrio. Marion no queria ouvi-lo. A ideia de infidelidade' fora a desculpa que ela arrumara para se livrar dele.
Bem, depois do domingo tudo isso chegaria ao fim. 0'Toole ligara duas vezes durante a semana, perguntando se ele decidira sobre a proposta da Califrnia. Geoff estava adiando a resposta, mas na segunda-feira logo cedo pretendia aceitar a oferta. Dentro de uma semana, estaria a milhares de quilmetros de Eternidade.
	Sr., Kent, o que aconteceu?
Geoff sobressaltou-se.
	Oh, nada, Freddie  recolocou a foto sobre a mesa, quando o ajudante entrou na sala.
	Se quiser posso mandar consertar o porta-retrato e trazer de volta na segunda.  Antes que Geoff pudesse responder, Freddie pegou o objeto.  Sei que no  da minha conta, sr. Kent, mas tenho de lhe dizer que estou contente em v-lo novamente com sua esposa.
Geoff sentiu um peso no corao.
	Voc... sabia que eu estava de partida?
	Sim, eu desconfiava.
Geoff sentiu-se pouco  vontade. Freddie era eficiente, mas ele nunca tivera intimidade suficiente com o rapaz para conversar sobre assuntos pessoais.
	No disse nada a ningum, espero? Marion e eu tentamos ficar bem essa semana para no estragar o casamento de Robyn.
	No gosto de fofocas  Freddie respondeu.  Tanto que nunca lhe disse nada sobre a tal srta. Taylor.
Aps alguns segundos, Geoff incentivou-o:
	Fale.
Freddie respirou fundo.
	Bem, no tenho certeza se o senhor est ciente do fato, mas a srta. Taylor vem tentando conquist-lo desde o primeiro dia em que vocs comearam a trabalhar juntos.
	Nunca percebi nada de errado, Freddie.
	No  de admirar. Aquela  uma cobra muito bem criada.
Geoff pensou em repreend-lo, mas a curiosidade foi mais forte do que a indignao.
	Na primeira vez em que o viu, ela me disse: "Esse sim  um homem atraente", referindo-se ao senhor.
Geoff coou a orelha, sentindo o rosto esquentar.
	Depois comeou a me fazer uma poro de perguntas a seu respeito. Questes pessoais, entende? Respondi algumas, mas logo a dispensei. Avisei que o senhor j era com prometido e muito feliz no casamento. Ela respondeu que no e que pretendia fazer algo a esse respeito. Algumas
semanas se passaram e, um dia, por curiosidade, perguntei se ela estava tendo progressos com o senhor. Mais uma vez, avisei que estava procurando a pessoa errada, j que o senhor era uma pessoa muito ntegra. Sabe o que ela respondeu? "Freddie, existem muitas maneiras de se separar um casal. Quando no se consegue por um lado, tenta-se por outro".
Geoff sentiu o sangue correr mais rpido nas veias.
	Quando foi isso?
	Oh, no ms de abril. Desculpe por no ter contado antes, mas eu no queria me comprometer. De qualquer modo, apenas quis lhe dizer o quanto fiquei contente por ela haver falhado. Passei um bom tempo preocupado, sem saber se deveria ou no avis-lo.
Geoff sentiu como se a sala estivesse rodopiando em torno dele. Ouviu a voz de Freddie como que vinda de uma longa distncia.
	O que disse?
	Precisa de mais alguma coisa?
	No, no  Geoff respondeu.  Pode ir embora.
	Obrigado, sr. Kent. Nos veremos no casamento, amanh.
Depois que Freddie se retirou, Geoff andou de um lado para outro durante uns quinze minutos, tentando concatenar os pensamentos. O que diabos Tiffany estivera tramando nas ltimas semanas? Parecia impossvel de acreditar. Ela sempre fora to profissional! Por outro lado, o que Freddie ganharia inventando toda aquela histria?
Num impulso, desceu para o andar de baixo. Na noite em que Marion flagrara ele e Tiffany, os dois estavam trabalhando ali, na sala de baixo, porque Tiff quisera acessar algo no computador de Freddie. Quando Marion aparecera  porta, Tiffany estava de frente para ela e a janela ao mesmo tempo, enquanto ele prprio se encontrava de costas.
Geoff balanou a cabea. Deus, isso era loucura! Seu casamento j estava em crise antes do aparecimento de Tiffany. Ainda assim...
Posicionou-se no mesmo lugar que Tiffany ocupara naquele dia e constatou o que j suspeitava: ela tivera uma viso clara da rua. Com certeza, avistara Marion vindo em direo ao escritrio.
Geoff andou de um lado para outro, tentando unir os detalhes. Marion aparecera com um envelope onde se lia "Urgente", que fora entregue na joalheria por engano. Em meio  confuso, ele ignorara esse detalhe. Quando o examinara no dia seguinte, descobrira que era da Seatham, mas o contedo no tinha importncia.
Num impulso, pegou o telefone e ligou para a Seatham. Pediu para falar com o setor de correspondncia. Depois que a funcionria fez as verificaes que ele pediu, Geoff perguntou:
 E de qual escritrio esse envelope foi enviado?
A resposta deveria t-lo surpreendido, mas no surpreendeu. Afinal, Graham o prevenira h trs semanas, no? Dissera que Tiffany era sinnimo de problema e estava certo.
Deus, se ela conseguira armar aquele beijo, o que mais no teria feito? Todo esse tempo, pensara que Marion estava usando isso como uma desculpa para terminar o casamento, mas o cime dela era verdadeiro!
Geoff riu alto, embora reconhecesse que a situao no era engraada. No tinha ideia de como comearia a consertar todos esses mal-entendidos. Nem sabia se ainda haveria tempo. Porm, nada nem ningum o impediria de tentar.

CAPITULO X

Passava alguns minutos do meio-dia quando Marion ouviu as animadas buzinas que anunciavam a chegada de Robyn e Nate. Estava preparando uma salada de maionese, correndo de um lado para outro da
cozinha.
	Geoff!  chamou atravs da porta.
Ele e um dos empregados da empresa de tendas atravessavam o jardim, carregando um pesado tablado de madeira. Um dos seis que, unidos, formariam a pista de dana.
	Eu ouvi  respondeu ele.
Marion guardou a salada na geladeira e foi direto  porta de entrada. Geoff encontrou-a nos degraus da varanda.
	Que maneira de sermos apresentados  famlia de Nate!  protestou ela, olhando a baguna no jardim e ajeitando os cabelos.
Sua maior preocupao, porm, era saber se ela e Geoff conseguiriam representar bem.
	Hora do show  disse ele com um sorriso que a deixou nervosa.  Vamos, segure minha mo.  isso que eles esperam ver.
Robyn saiu do carro e correu direto para os braos de Geoff.
	Puxa vida, h quanto tempo no nos vemos!  exclamou ela.
	 verdade, menina  Geoff sorriu, levantando-a do cho.
Por um momento, Marion sentiu inveja da irm. Tambm queria voltar a ter a liberdade de abraar Geoff assim.
	Hei, Marion!  Robyn abraou-a. Venham conhecer a famlia de Nate.
A sra. Lloyd era uma mulher simptica e espirituosa.
	 um prazer conhec-los  ela sorriu.  Nate falou muito a respeito de vocs.
Marion evitou olhar para Geoff.
	Esto sendo maravilhosos com meu filho e Robyn. Oferecer a recepo aqui e tudo mais...
Carol, irm de Nate, apareceu carregando um beb. Seu marido, David, veio logo atrs, trazendo um menininho de cinco anos pela mo.
Por um momento, Marion olhou para aquela famlia com um ar de encantamento. "Eu e Geoff poderamos estar assim, se as coisas houvessem dado certo", pensou consigo.
	Oi. Oh, ela  uma gracinha!  Marion admirou o beb.  Est com quantos meses?
Nate ajudou a av a sair do carro e logo terminaram as apresentaes. Os Lloyds eram muito amigveis e Marion simpatizou com eles desde o primeiro instante. Todavia, percebeu que pareciam pouco  vontade, longe de casa.
Lanou um olhar de apelo para Geoff, pedindo que a ajudasse a deix-los mais relaxados. No teve certeza se ele entendera. Em outros tempos ele sabia ler seus olhares, porm as coisas haviam mudado.
	Estou morrendo de vontade de ver o jardim, maninha. E eu estou morrendo de vontade de mostr-lo a voc, porm o pessoal ainda est terminando de montar a tenda. Por que no entram e descansam um pouco enquanto eles terminam?
Aps todos se acomodarem na sala, Marion foi preparar uma bebida gelada. Ao voltar, encontrou o pessoal conversando com animao. Parou  porta, surpresa. Sempre precisara do apoio de Geoff em situaes sociais, e ele a ajudara mais uma vez.
Acomodara o sr., a sra. Lloyd e a av de Nate prximos  lareira antiga. Levara Carol e Robyn para a montanha de presentes que chegara na ltima semana. Nate e o cunhado estavam sentados no tapete, brincando com as crianas.
Os Lloyds estavam encantados com os detalhes antigos da casa, preservados com tanto cuidado. Marion estava mostrando os quartos quando seus pais chegaram. Pediu licena, deixando Geoff com os convidados e correu at o andar de baixo.
No via os pais h cinco meses e quando a me a abraou, suas emoes vieram  tona.
	O que  isso, menina?  Sara Chace riu, afagando os cabelos da filha.
Marion sorriu com lbios trmulos. Como queria ter os pais novamente perto de si, agora que estava grvida e prestes a ficar sozinha.
	Acho que ela sentiu nossa falta, Henry. Oh, menina...
 A me abraou-a mais uma vez.  Por que no nos deixou vir antes para ajudarmos?
	No era preciso, mame. Est tudo sob controle.
	Como est minha menina?  O pai a abraou com fora.
	Estou bem, papai  ela conteve as lgrimas.
	Ora, est mais bonita que nunca.
	Acho que ela emagreceu um pouco, Henry.
	Como est a joalheria?  indagou ele, ignorando o comentrio da esposa.
	Vai indo bem. Querem passar por l na prxima semana?
	Claro!  respondeu ele, entusiasmado.
	Agora venham conhecer a famlia de Nate. Acho que vocs e os Lloyd se daro muito bem.
Almoaram na sala de jantar, prosseguindo a conversa com animao. Marion imaginou que era assim que deveria ser sempre. Sem querer, seus olhos encontraram os de Geoff. Ele estava do outro lado da mesa, servindo-se de uma xcara de caf. Estranho, mas era como se o passado tranquilo estivesse de volta.
Ao passarem um pelo o outro, na cozinha, a mo de Geoff tocou sua cintura com a mesma intimidade que haviam compartilhado no passado, durante as reunies familiares.
De fato, Geoff estava desempenhando seu papel at bem demais. Ao mesmo tempo em que isso facilitava o comportamento de Marion, a dor em seu corao aumentava ainda mais.
Por fim, quando arrumaram a cozinha, Geoff sugeriu que fossem ao jardim.
	Oh, mas est lindo!  Robyn empolgou-se ao ver a tenda montada.  Maravilhoso! Nate, no est magnfico? indagou ela, insinuando-se entre as mesas.
	Espere s at ver isso  disse Geoff.
Puxou duas cordas e o interior da tenda ficou todo iluminado. As luzes vinham de todos os lados, dispostas em lugares estratgicos.
	Lindo...  Robyn estava boquiaberta.
	Oh, Marion, isso ficou espetacular  disse a me dela, observando as plantas ornamentais.
	Minha nossa, at uma pista de dana?  Carol arregalou os olhos.
O sr. Lloyd percorreu a vista pelas mesas. Somente algumas delas j estavam prontas.
	Parece que ainda faltam algumas coisinhas  comentou ele.
Marion suspirou. Esperara estar bem mais adiantada a essa altura do dia.
	Podemos ajudar?
Marion fez meno de protestar, mas a sra. Lloyd uniu-se ao marido:
	Oh, por favor. Nos sentiremos bem melhor tendo participado de alguma coisa.
Marion e Geoff se entreolharam e deram de ombros.
	Est bem  respondeu ela.  Mas primeiro os homens precisam ir buscar as roupas que encomendei no alfaiate.
No horrio marcado para o ensaio, tudo j estava pronto. Cansada, mas satisfeita, Marion entrou no carro com um suspiro.
	Como acha que estamos nos saindo?  perguntou Geoff no trajeto at a propriedade Powell.
	Merecemos um "A" durante a maior parte do tempo. Entretanto, isso est sendo mais difcil do que imaginei, Geoff.
Virou para a janela, esperando que ele no fizesse nenhuma pergunta.
Tente relaxar  Geoff sugeriu, conseguir faz-lo.
Chegaram minutos depois. Todos haviam ido, j que sairiam para o jantar logo depois do ensaio. Seguiram pela trilha at alcanar a capela, ao p de uma colina.
	Oh, mas essa vista  impressionante  comentou a me de Nate quando saram dos carros.
	Essa capela ... diferente  disse o sr. Lloyd.  Parece uma daquelas construes das pequenas vilas inglesas.
	Quase acertou, papai  respondeu Nate.  Se tivesse dito Wales, teria acertado na mosca.  Robyn abraou-o pela cintura.  Bem  disse voltando-se para ela , melhor terminarmos logo com isso.
	Tem certeza de que no est ficando com medo?  ela brincou.  A essa hora amanh...  fez a mmica de uma corda no pescoo dele.
Nate sorriu, abrindo a pesada porta de madeira. Geoff seguiu atrs do grupo. Parou  porta.
	No vem, Marion?  inclinou a cabea.
S ento Marion notou que no dissera uma palavra desde que sara do carro. Estar ali, diante da capela, surtiu um efeito em seu ser que ela no conseguiu explicar. Limpou a garganta com dificuldade.
	Sim, j vou  respondeu, por fim.
Do lado de dentro, o sol do fim de tarde entrava atravs dos vidros ornamentados. Havia somente trs janelas altas e estreitas, em uma das paredes.
	Oh, ...  a irm de Nate hesitou, surpresa.
	Simples  Marion terminou por ela, sorrindo.
	Sim  Carol anuiu, enrubescida.  Desculpe, mas  que estou acostumada a ver capelas cheias de ornamentos elaborados.
Percorreu a vista pelas paredes brancas at o lugar onde provavelmente deveria haver um altar. Ali no havia nada alm de um plpito sem ornamentos e um cercado simples, separando-o dos assentos da igreja.
	No precisa se desculpar. As pessoas costumam ficar surpresas quando vem a capela pela primeira vez. No existe rgo, coral nem sino. Pensam o que leva algum a querer se casar aqui.
	Eu gostei  a sra. Lloyd sorriu.  De verdade. Existe algo de... especial nesse lugar.
O sr. Lloyd assentiu.
	Nate disse que todos vocs casaram aqui. E verdade?
O pai de Marion respondeu que sim.
	Bem, espero que essa capela abenoe nossos filhos assim como abenoou vocs.
Marion arriscou um olhar para o marido.
	Alguns ancestrais de Geoff ajudaram na construo da capela  comentou, tentando mudar o rumo da conversa.
	E mesmo?  inquiriu o sr. Lloyd.
	No na estrutura  Geoff explicou.  Naquela poca, minha famlia tinha muitos carpinteiros. Mas sabendo o quanto esses bancos so desconfortveis, no tenho certeza se quero que essa notcia do parentesco seja divulgada.
Ainda estavam rindo quando a porta foi aberta.
	Oi  Bronwyn cumprimentou todos.
Deixou a porta aberta para ventilar a capela e se aproximou, vestida com uma bermuda caqui e uma blusa florida. Marion apresentou-a aos Lloyd, divertindo-se com o ar de surpresa deles.
O sr. Lloyd foi o primeiro a falar:
	Voc no  nada do que imaginei quando meu filho disse que a cerimnia seria realizada por uma juza de paz  sorriu.
	No se preocupe, sr. Lloyd. O casamento de seu filho ser perfeitamente legal. E, oh, sim, tentarei vestir algo mais apropriado.
Conversaram mais um pouco at Bronwyn sugerir que comeassem o ensaio. Mostrou o lugar que cada um deveria ocupar. Bronwyn tinha um mtodo agradvel de realizar os ensaios, sabendo o quanto as coisas podiam se tornar tensas na vspera de uma cerimnia. Fez todos rirem com sua interpretao da "Marcha Nupcial" e os passos exagerados pelo corredor.
Marion sorria com todos, mas a sensao de dja vu que comeara a invadi-la desde o lado de fora da capela, teimava em lhe tirar a concentrao.
Logo a noite de seu prprio casamento tornou-se evidente em sua memria. Flagrou-se lembrando de detalhes h muito esquecidos e sentindo o mesmo tipo de expectativa daquela noite. O nervosismo e, ao mesmo tempo, a alegria de saber que essa seria a ltima noite em que ela e Geoff dormiriam separados.
A ironia da situao tambm no lhe passou despercebida. No dormiam na mesma cama h quatro semanas, e, depois do casamento de Robyn, no dividiriam nem a mesma casa.
Quando o ensaio terminou, todos foram para o hotel Haven. As lembranas continuaram a assaltar Marion. Fora ali que ela e Geoff haviam tido o jantar anterior ao casamento.
Em circunstncias normais, no teria se importado com tais lembranas. Contudo, no momento elas tornavam ainda mais dolorosa a ideia de que um dia ela e Geoff haviam sido felizes.
Felizmente, todos concordaram em partir cedo. Ela e Geoff chegaram em casa s dez.
	H mais alguma coisa a ser feita?  indagou ele, desligando o carro.
	No, apenas minhas unhas.
Geoff sorriu.
	Parece cansada. Por que no descansa por hoje? Isso pode ser feito amanh cedo.
Marion no esperava que Geoff fosse toc-la. Um leve deslizar da ponta dos dedos em seu queixo. Nem tampouco esperava sucumbir ao toque, quase pedindo a ele que ficasse.
Sobressaltou-se no instante seguinte. O que estavam fazendo? No havia ningum por perto para terem de representar.
Confusa, abriu a porta do carro e foi direto para casa. Porm, mesmo sozinha na cama, horas depois, ainda podia sentir o calor do toque de Geoff em seu rosto.

CAPITULO XI

Marion ajeitou o vu de Robyn. 
 Ficou muito amassado no caminho at aqui?  Robyn indagou, preocupada.
	No, querida, est timo.
A me delas ajeitava com cuidado a saia de Robyn. O vestido era de cetim e renda, bordado com milhares de prolas delicadas. Se Robyn tivesse levado meses para escolh-lo, Marion duvidava que ela encontraria algum outro que a fizesse parecer tanto com uma princesa.
De dentro da capela, vinha o som de violinos interpretando Lieberstraum, de Liszt.
	Ainda no consigo acreditar que tenha conseguido esse quarteto de cordas  os olhos de Robyn brilharam.  Voc  demais, Marion.
	Que nada! Ainda mais com papai e mame bancando a conta  ela brincou.
	 verdade. Marion. Isso  muito mais do que eu esperava. Nem sei como agradecer.
	Apenas...  Marion esforou-se para conter as lgrimas  ... seja feliz.
O cunhado de Nate apareceu  porta.
	Tudo pronto, sra. Chace?
Todos j estavam acomodados e esperavam a me da noiva para tomar o lugar no altar. Ela abraou a filha.
	Estou bem, Marion?  indagou, ajeitando o tailleur cor-de-rosa.
	Simplesmente linda, mame.
Com um sorriso, a sra. Chace dirigiu-se ao interior da capela.
 Ok, papai. Agora  a nossa vez. Marion fez um gesto para que ele tomasse o brao de Robyn.
Henry Chace, que sempre fora uma rocha, parecia mais nervoso do que a prpria noiva.
A capela estava repleta de parentes e amigos. Quando a "Marcha Nupcial" comeou, todos ficaram de p. Marion percorreu a vista pela capela, agora enfeitada com fitas de cetim e lindos arranjos de flores. Sorriu, satisfeita, e comeou a andar pelo corredor.
Bronwyn estava diante da congregao, vestida com uma bata escura de linho. Nate encontrava-se  direita, ansioso e feliz ao mesmo tempo. Seu olhar estava fixo em um ponto atrs de Marion.
Hesitante, Marion voltou a vista para Geoff, alto e elegante, ao lado do noivo. Mantinha os olhos fixos nela, assim como Nate olhava a noiva. De sbito, o corao de Marion se acelerou. Tentou desviar a vista, mas era como se houvesse um magnetismo entre os dois.  '
"Olhe para outra pessoa, por favor!", implorava ela com o olhar. Todavia, ele no deixou de observ-la nem por um instante sequer. Mesmo preocupada em manter o ritmo dos passos com a msica, no deixou de notar o quanto Geoff estava magnfico.
Ela prpria trajava um vestido azul bem claro, cujo modelo ressaltava suas curvas, agora um pouco mais acentuadas, devido  gravidez. Fora ao salo de beleza pela manh e seus cabelos haviam sido presos num bonito penteado com um delicado arranjo de flores de um lado. Sentia-se frgil, feminina. Ao notar a admirao nos olhos de Geoff, foi tomada por uma onda de satisfao.
Oh, precisava se controlar o quanto antes. Essa representao j estava se tornando real demais. Se no tomasse cuidado, acabaria fazendo papel de tola antes do fim do dia. Depois de tomarem os devidos lugares, Bronwyn iniciou a cerimnia.
 Bem-vindos  disse a todos.  Estamos aqui reunidos para testemunhar a unio de duas das melhores pessoas que j tive o prazer de conhecer. Nate e Robyn.
Marion sabia que Bronwyn tencionava dizer algumas palavras antes da cerimnia. Ela mencionara isso no ensaio. S que Marion no tinha a mnima ideia do que sua amiga pretendia falar.
	Para aqueles no familiarizados com a Capela de Eternidade e que estiverem se perguntando por que esses dois fizeram a famlia providenciar um casamento no prazo de trs semanas s para que a cerimnia fosse realizada aqui  ouviram-se risos entres os convidados , eu gostaria de falar algumas coisas sobre esse lugar.
Marion conteve a respirao. Podia apostar que Bronwyn ia falar sobre aquela lenda idiota.
	Existe uma lenda associada a essa capela...
Marion encolheu-se. Embora ela e a amiga houvessem conversado vrias vezes desde o encontro no mercado, nunca mais haviam falado sobre a lenda.
	... uma lenda que declara que nenhum casamento aqui realizado trar infelicidade. Em consequncia, casais tm vindo a essa capela durante mais de um sculo, nunca questionando se a lenda  ou no verdadeira. At recentemente, eu tinha essa mesma crena inquestionvel. Porm, h algumas semanas, algum me disse: "Bronwyn, pense um pouco. Considerando o nmero de pessoas que j casaram nessa capela, acredita mesmo que nenhum desses casamentos foi infeliz ou se desfez?
Marion encolheu-se ainda mais. Pelo canto dos olhos, notou que Geoff olhava em sua direo, com uma sobrancelha arqueada. 
	Nem  preciso dizer o quanto o comentrio dessa pessoa me afetou. Entretanto, tambm me fez pensar. Por fim, cheguei a algumas concluses que gostaria de compartilhar com vocs, Robyn e Nate. Espero que sejam de algum valor no futuro.
A capela estava to silenciosa que Marion podia ouvir o canto dos pssaros do lado de fora.
	Geralmente as pessoas pensam que casar nessa capela  uma garantia certa de que no tero problemas. Porm, a vida  cheia de problemas e todos os casais passam por testes, no importando quem sejam ou onde tenham se casado. Essa capela no atua como uma concha protetora sobre ningum.
Bronwyn continuou a se dirigir a Nate e Robyn, mas Marion suspeitou de que as palavras eram para ela e Geoff.
	Nesse ponto  Bronwyn prosseguiu , concordo com essa pessoa e, para ser sincera, nem eu mesma entendo a lenda. Estatsticas provam que casamento  um negcio muito difcil hoje em dia. Um em,cada dois termina em divrcio.
Portanto, levando as probabilidades em conta, a lenda realmente torna-se sem sentido, no ? Contudo, nunca ouvi falar de um casal que houvesse se separado depois de casar aqui, por isso s posso deduzir que esses casais tm algo a mais a favor deles.  Percorreu a vista pela audincia.
 E nisso que acredito. Pessoas que se casam aqui crem na possibilidade de um casamento feliz. Em consequncia, nos tempos difceis eles tentam encontrar uma soluo, j que a ideia de no faz-lo simplesmente no existe para eles. Em outras palavras, a lenda se auto-sustenta, sendo que a magia no existe na capela em si, mas nas pessoas que se casam aqui.
Lanou um olhar para Marion e Geoff. Marion uniu as mos com fora. Geoff cruzou os braos.
	No momento, Robyn e Nate, vocs esto vivendo um momento to bonito que talvez nem estejam dando ouvidos a esse discurso sobre tempos difceis. Porm, lamento dizer que o perodo da lua-de-mel passar. E natural. E quando isso acontecer, enfrentaro a primeira crise do casamento. Se forem como alguns casais, pensaro que a magia desapareceu de sua unio.
Marion manteve a vista abaixada. No havia mais dvidas quanto a quem estava sendo endereado esse discurso.
	No entanto, quero propor a ideia de que a magia no desapareceu. O relacionamento apenas entrou em um perodo de mudana e isso deve ser encarado com maturidade, quando se deseja a continuidade de um relacionamento. Um casamento no permanece sempre igual. Ele flui. Como o rio que atravessa essa cidade, ele flui, muda e adquire um novo percurso mais adiante. Em um momento, conflitos profissionais podem se tornar causa de problemas conjugais. Em outro pode ser a criao dos filhos. E tudo isso traz mudanas para a vida em comum. O segredo  no esquecer o dilogo. No tenham medo de compartilhar seus medos e necessidades. Falem mas, acima de tudo, ouam. O poder de manter o casamento vivo e vibrante est exclusivamente nas mos de vocs.
Marion levou a mo  testa. Mantendo-a ali, olhou Geoff de soslaio. O olhar de ambos se encontrou.
A recepo transcorreu sem nenhum contratempo, para alvio de Marion. Os convidados se divertiram muito, tomando champanhe e provando as deliciosas iguarias servidas pelo buffet, enquanto a banda tocava msicas variadas.
No decorrer da noite, ela e Geoff circularam entre os convidados, trocando olhares furtivos de vez em quando. Marion estava sempre muito ciente de onde ele se encontrava e o mesmo parecia estar acontecendo com Geoff. Essa perseguio visual j estava deixando-a nervosa e confusa ao mesmo tempo.
Trocava algumas palavras com Bronwyn quando Kerry, a vocalista da banda, chamou Nate e Robyn para a primeira dana dos noivos. Ento os msicos comearam uma bela interpretao da cano Unchained Melody.
Enquanto observava os noivos, Marion notou que Geoff a olhava do outro lado da pista. Seu corao se acelerou. Ser que tambm teriam de danar?
Kerry chamou os pais dos noivos. Marion desviou a vista de Geoff, tentando aparentar indiferena. Todavia, seu corao parecia querer pular do peito.
"Acalme-se, Marion", disse a si mesma. "Voc j danou com ele incontveis vezes".
Ainda assim, persistiu a sensao de que essa seria sua primeira dana com Geoff. Finalmente veio o chamado para os padrinhos. Ele aproximou-se com passos tranquilos.
 Faz tanto tempo que no danamos que nem sei se me lembro mais  comentou Marion pousando a mo sobre a dele.
	 como andar de bicicleta  respondeu Geoff.  Nunca esquecemos.
Conduziu-a at a pista e a tomou nos braos. Marion esperou que ele no sentisse o tremor em seu corpo. A dana terminou pouco depois e Marion foi direto para a cozinha com a desculpa de verificar como estavam indo as coisas. Fazia alguns minutos que estava l quando ouviu a voz de Bronwyn vinda da porta:
	Marion, precisamos de voc aqui fora.
	O que foi? Algum problema com o buffet?  indagou Marion, deixando o avental para trs.
	No, nenhum problema  Bronwyn sorriu.
- Venha at aqui, Marion  Kerry chamou-a ao microfone. Ela lanou um olhar alarmado para Bronwyn.
	O que est acontecendo?
	V  a amiga incentivou-a.
Marion seguiu em frente. A pista estava vazia e todos olhavam para ela. Viu Geoff a pouca distncia e, quando o questionou com o olhar, ele deu de ombros.
	Marion e Geoff. Acabamos de saber que vocs celebraro um certo aniversrio na prxima semana.
Marion sentiu o estmago se contorcer. Viu quando Geoff virou-se para Graham de repente.
	Ora, seu...!
Todos riram, divertindo-se com o embarao dos dois.
	Venham at aqui  Kerry chamou-os.
Sorrindo por fora, mas tremendo por dentro, Marion uniu-se a Geoff diante do palco.
	Como foi padrinho do casamento de vocs, o dr. Reed fez questo de participar das honras.
Enquanto Graham subia ao palco, Marion lanou um olhar desconfiado para Geoff.
	Tem certeza de que no est por trs disso?
Geoff balanou a cabea.
	Eu juro.
	Sinceramente, entre Graham e Bronwyn... Precisamos arrumar novos amigos, Geoff.
	Tem razo. Se ele ousar dizer algo embaraoso...
Graham posicionou-se diante do microfone.
	Todos ergam suas taas, por gentileza.
A me de Marion adiantou-se, entregando uma taa de champanhe para cada um.
	Marion, Geoff  Graham comeou num tom solene, mas no aguentou e comeou a rir.  Puxa, se vocs vissem o quanto parecem assustados! Prometo ser bonzinho.  Limpou a garganta.  Marion, Geoff, no sou o sujeito mais romntico do mundo, mas quando olho para vocs dois, algo me faz acreditar no amor. Durante onze anos vocs tm nos mostrado o que  um casamento feliz. Hoje queremos parabeniz-los por essa unio duradoura.  Ergueu o prprio clice.  Parabns, meus amigos, e continuem se amando dessa maneira.
Aps tomarem um gole de champanhe fitando-se nos olhos, Geoff deixou os clices sobre uma mesa e levou-a at o centro da pista.
Kerry pegou o microfone novamente.
	Essa  uma daquelas canes romnticas que nunca esquecemos, senhoras e senhores  anunciou ela aos primeiros acordes de Only You.
Marion engoliu seco.
	Isso no  justo.
	Tudo  vlido no amor e na guerra  citou Geoff, tomando-a nos braos.  Vem c, sra. Kent...
Marion no soube de onde tirou foras para se mover. Ouviu aplausos, mas s o que interessava era o olhar intenso de seu marido.
Difcil pensar na separao com Geoff abraando-a assim, com tanto carinho. Kerry comeou a cantar e logo o cenrio em volta desapareceu, deixando-os em um lugar onde eles e a msica eram os nicos atuantes.
	Voc est bem?  Geoff sussurrou-lhe ao ouvido.
	No. Acho que vou desmaiar.
	No se preocupe. Eu a segurarei e continuarei danando. Voc sabe, como costumam fazer com aquelas bonecas de pano. Ningum notar.
Marion sorriu, sem resistir ao charme dele.
	Geoff, todos esto nos olhando.
	Queria que estivessem de costas? Essa  nossa dana.
Ela suspirou, rendendo-se ao ritmo.
	Sim, .
E, pelo visto, tambm seria a ltima dana. Num impulso, Marion fechou os olhos e enlaou os braos em torno do pescoo dele. No lutaria mais contra seus sentimentos. Pelo menos por alguns minutos, renderia-se ao charme, o perfume, o calor e a proximidade de Geoff.
Quando a msica terminou, permaneceram mais alguns segundos nos braos um do outro. Por fim, Geoff se afastou. Marion surpreendeu-se ao notar que os olhos dele estavam midos.
Kerry pediu uma salva de aplausos. Marion pensou que Geoff fosse beij-la, mas logo comeou uma msica mais animada e os convidados invadiram o palco, quebrando o momento de magia.
Marion afastou-se.
	Acho melhor voltarmos...
De sbito, Geoff puxou-a para si com uma firmeza que a deixou sem flego. Passou o brao em torno da cintura dela com um brilho diferente no olhar.
	No tenha tanta pressa, sra. Kent  murmurou. Mantendo-a junto de si, desfez o n da gravata e com o mais irresistvel dos sorrisos, disse:  Vamos danar.

CAPITULO XII

Algumas horas depois, todos j haviam partido. Os convidados, a famlia e at mesmo a banda.
De mos dadas, Marion e Geoff pararam embaixo da tenda. Ela percorreu a vista pelas luzes, os ornamentos e outros detalhes da decorao. O nico som que ouviam agora era o chirriado dos grilos.
	Bem, Geoff, ns conseguimos  disse, voltando-se para ele.
	Sim. Foi um bonito casamento. Robyn e Nate sempre lembraro desse dia com saudade.
Porm, o sorriso de Geoff logo se desvaneceu, demonstrando a Marion que ele sabia que haviam feito mais do que organizar o casamento. Desempenharam seus papis com preciso, convencendo todos de que ainda formavam um casal feliz. Fora to fcil! E isso era o que mais a intrigava. O que comeara como algo difcil, h trs semanas, nesse dia tornara-se bem real.
	Obrigada, Geoff.
	Por favor, no me agradea. Faz parecer que fui forado a fazer algo que no queria.  Aproximou-se mais, deslizando as mos pelas costas de Marion.  Quando a tenda ser desmontada?
	Segunda-feira.
	Oh, timo. Vamos convidar todos para um churrasco, amanh.
Marion sorriu. Espalmou as mos sobre o peito dele, sentindo seu calor atravs do fino tecido da camisa. A intimidade que haviam compartilhado antes ainda persistia. Parecia at um milagre.
	Sabe do que mais gostei?
A voz de Geoff saiu perigosamente insinuante quando ele a puxou mais para si.
	Do qu?
	De danar novamente com voc. Fazia tanto tempo...
	Hmm. Foi muito bom  Marion anuiu, deixando-se ficar junto dele.
Levantou o rosto devagar, at seus olhos encontrarem os de Geoff.
	Voc era a mulher mais bonita da festa. Eu lhe disse isso?
	Oh, pare  Marion sorriu, escondendo o rosto junto ao peito dele para disfarar o embarao.
	Mas  verdade - Geoff insistiu com gentileza.
	A noiva  sempre a mais bonita.
	Robyn estava linda tambm, mas no tanto quanto a irm.

	Geoff, est tentando me seduzir?
Ele sorriu com ar insinuante.
	E estou conseguindo?
Marion levantou a cabea novamente, deixando que ele visse o brilho da paixo em seus olhos.
Percebeu a mudana fsica em Geoff. Seu corpo tornou-se tenso e o ar de brincadeira desapareceu de seus olhos, cedendo lugar a um indisfarvel desejo. No instante seguinte, beijou-a com um ardor que deixou Marion sem flego. Ambos estavam ofegantes quando Geoff se afastou.
	Oh, Deus, como senti falta dos seus beijos.
	Ento me beije novamente  disse Marion com voz rouca.
Geoff no perdeu tempo. Foi um beijo de pura possesso, no deixando dvidas quanto ao desejo que o assaltava. Marion abriu os lbios para ele, demonstrando que tambm o desejava.
Tomando-a nos braos, Geoff levou-a em direo  casa. No caminho, algumas flores caram dos cabelos de Marion. Nenhum deles pensou em acender as luzes.
Geoff empurrou a porta do quarto e entrou com Marion nos braos. Ao lado da cama, ele colocou-a no cho, deixando o corpo dela deslizar junto ao dele de maneira provocante. Segurando-a pelos ombros, roou os lbios entreabertos junto aos dela, depois deixou uma trilha de beijos no pescoo delicado at alcanar-lhe a curva entre os seios. Marion sentiu como se sua pele estivesse em chamas.
Geoff abriu a camisa com agilidade e Marion afastou o tecido, deslizando as mos pelo peito coberto de plos macios.
	Senti sua falta, Geoff - sussurrou.
	Tambm senti a sua.
Puxou-a para si, beijando-a novamente. Marion sentiu o zper de seu vestido ser aberto. Dedos gentis insinuaram-se pela abertura e pouco depois o traje caa no cho, em torno de seus ps.
Sem interromper o beijo, deitaram na cama, acariciando-se com uma nsia nascida de semanas de separao.
Com uma experincia adquirida depois de onze anos de prtica, Geoff tirou as roupas ntimas de Marion. Em seguida, a prpria cala. Logo no havia mais nenhuma barreira entre os dois.
Marion surpreendeu-se ao distinguir um sorriso nos lbios de Geoff.
	Por que est rindo?  sussurrou, acariciando o queixo dele.
O sorriso de Geoff se ampliou.
	Quando nos casamos, pensamos que sabamos de tudo.  Abaixou a vista at os seios dela.  Por que ningum nos contou?
	Contou o qu?
	O quanto o amor fica ainda melhor com o passar do tempo.
Marion sorriu, concordando.
	Geoff, tenho tantas coisas para dizer...
	Eu sei. Eu tambm. Mas no momento...  Estendeu o corpo sobre o dela, pressionando-a com seu peso.  No momento tenho algo mais interessante em mente...  sussurrou.
Inclinando a cabea, traou o contorno dos lbios dela com a ponta da lngua. Logo a paixo chegou a tal ponto que tudo que Marion desejava dizer simplesmente desapareceu de sua mente, exceto o pedido: "Por favor, Geoff, me ame como nunca..."
Geoff acordou aos poucos, tomado por uma deliciosa sensao de euforia. Ento lembrou por que estava se sentindo to bem essa manh. Virou a cabea, deparando-se com o rosto adorvel de sua esposa, ainda adormecida. Sorriu, satisfeito. Parecia at que eles  que estavam em lua-de-mel, depois da maneira apaixonada como haviam feito amor na noite anterior.
Levantou com cuidado para no acordar Marion e comeou a recolher as roupas espalhadas pelo quarto. Arrumou o vestido dela sobre uma cadeira. Distrado, abriu uma gaveta para guardar a meia-fina de Marion. Estava prestes a fech-la quando encontrou um vidro de remdio. Pegou o objeto, franzindo o cenho. Marion estava doente?
Leu o rtulo e a surpresa o deixou entontecido durante alguns segundos. Marion estava grvida?
Virou de repente, morrendo de vontade de acord-la e cobri-la de beijos. Contudo, seu nimo se foi com a mesma velocidade. Por que ela no lhe contara?
Na mesma gaveta, encontrou um calendrio de consultas com o dr. Toomey. Percorreu a vista por ele, descobrindo que o perodo de gravidez estava estimado em dois meses.
Geoff sentou, espantado. Marion descobrira que estava grvida e preferira no contar a ele. Por qu?
Experimentou um vazio dentro de si, algo que pensou que nunca mais voltaria a sentir. Olhou para sua esposa adormecida. Era como se fosse um estranho para ela.
A dor em sua alma foi quase fsica. Marion no contara porque no queria que ele soubesse sobre a gravidez. Planejava se livrar do casamento sem ao menos contar isso a ele.
Por isso ela tinha tanta pressa para que ele sasse de casa. Queria que ele partisse a.ntes que a gravidez comeasse a aparecer.
Guardou as coisas na gaveta e fechou-a devagar. Saiu do quarto e foi tomar um banho, imaginando o que faria com o resto de sua vida.
Marion vestiu um jeans e uma camiseta branca. Escovou os cabelos e desceu a escada rpido, pulando os dois ltimos degraus.
	Geoff?  chamou, olhando no escritrio.
Ao ver que o aposento estava vazio, foi  cozinha. Encontrou-o do lado de fora, sentado no primeiro degrau da varanda da cozinha. No se virou quando ela abriu a porta.
	Bom dia!  cumprimentou-o com animao.
Geoff no respondeu. Parecia tenso. Marion se aproximou, franzindo o cenho. No era esse o comportamento que esperava de Geoff.
Ento uma ideia a atingiu como um raio: Geoff ainda planejava ir embora. Nada mudara. Mesmo na noite anterior ele tinha isso em mente. S que agora no sabia como dizer, depois de terem feito amor.
Reunindo toda coragem que lhe restava, perguntou:
	Quer conversar?
Geoff virou e s ento ela viu a mgoa nos olhos dele. 
	Sim, acho que  necessrio.  Ficou de p.  Quer andar um pouco?
Marion assentiu e os dois seguiram devagar pelo jardim.
	Qual o problema, Geoff?  ela foi a primeira a falar.
Ele riu, irnico.
	Voc est grvida, no ?
Marion experimentou uma onda de felicidade, mas ela logo se foi. Geoff no parecia contente com a notcia. Claro que atrapalharia os planos dele.
	C-como descobriu?
	Estava guardando algumas peas de roupa agora cedo e abri uma de suas gavetas.
	Lamento por ter descoberto.
	Aposto que sim.
	No queria atrapalhar seus planos. Achei que se contasse voc se sentiria preso em uma armadilha.
Geoff estreitou o olhar.
	Marion, sobre o que est falando?
	Nada. Oua, apenas v e seja feliz. Por mais que eu esteja partida por dentro, desejo-lhe o melhor. Sempre desejei.
	E por que est partida por dentro?
Ela desviou o olhar.
	Acha que no  para eu estar, sabendo que meu marido se apaixonou por outra mulher e pretende morar a milhares de quilmetros?
Geoff pareceu estupefato. Marion suspirou.
	Oh, Deus, acabei de fazer o contrrio do que pretendia  ela lamentou.  Fiz voc se sentir culpado. Esquea o que eu disse. Estou bem, de verdade.
	Espera que eu acredite que no me contou sobre a gravidez porque queria que eu... partisse e fosse feliz? Acha que sou to ingnuo assim?
	Bem, e que outro motivo me levaria a faz-lo?  Marion inquiriu.
	E o que tambm tenho me perguntado.
	Mas parece que j sabe a resposta. Por que no diz?
	Acho que no contou porque no me quer mais na sua vida. Tornou-se to independente que nem precisa de um pai para seu filho.
Marion abriu a boca, mas no conseguiu dizer nada. Estava chocada.
	Diga algo, Marion. Tente me iludir com outro discurso sobre o quanto deseja minha felicidade.
	Oh, seu cretino!  ela explodiu.  No contei sobre o beb porque sei que irei perd-lo.
Geoff congelou.
	O que disse?
	J tive dois abortos. Essa gravidez est destinada a terminar como as outras. Sei o quanto ficou desapontado das outras vezes e no queria v-lo passar pelo mesmo desapontamento. Sei que no posso oferecer o tipo de vida que voc deseja.
Geoff levou a mo  testa.
	Oh, Marion, ser que todos nossos conflitos se resumem ao fato de no podermos ter filhos?
Marion engoliu seco.
	No foi isso que o fez perder o interesse por mim?
	Perder o interesse?
	Sim. Depois que desistimos de ter filhos, voc tornou-se distante. Comeou a trabalhar mais horas por dia e ficar mais com os amigos do que comigo. Geoff olhou-a, incrdulo.
	Marion, foi voc quem mudou! Fechou-se naquele escritrio e s queria saber de trabalhar. Desde aquela poca, pensei que voc houvesse perdido o interesse por mim.
	No! Nunca!
	Ento o que aconteceu?  Geoff questionou.
Olharam-se por um tempo que pareceu infinito. Por fim, ele estendeu a mo.
	Oh, meu amor, vem c...
Ela obedeceu. Abraaram-se durante um longo tempo.
	Entrei de cabea no trabalho para suprir a angstia de no ter podido lhe dar um filho  Marion confessou.
	Oh, querida, sinto muito. No imaginei que o motivo fosse esse. Agora entendo que tambm acabei me refugiando no trabalho para fugir da situao. No conseguia suportar sua indiferena. Com isso, acabamos criando um problema ainda maior, deixando que uma mulher diablica como Tiffany atrapalhasse nossa vida.
	Diablica?  Marion espantou-se.
	Sim. Precisamos esclarecer muitas coisas a respeito dela.
E foi o que fizeram. Conversaram durante uma hora. Ao
terminar, ambos estavam bem mais aliviados. Sentaram na relva, aproveitando o sol.
	E quanto  oferta de emprego na Califrnia?
	No pretendo aceit-la. Estou contente com meu trabalho aqui, em Eternidade.
	Mas Tiffany disse que voc se sentia infeliz trabalhando em casos pequenos.
	Mais uma tolice daquela mulher. No vou sair de Eternidade.
	Os deuses nos fizeram muitas concesses, Geoff. Depois de tudo que passamos,  uma bno estarmos juntos agora.

	Casamos na Capela de Eternidade, lembra?
Marion endireitou o corpo.
	Geoff, voc acredita na lenda?
Ele fitou-a nos olhos.
	Acredito em ns.
	Eu tambm  Marion sorriu, feliz.
Geoff beijou-a com um carinho que denunciava sua crena no futuro e no amor entre ambos. , no podiam mesmo reclamar da sorte. L estava a magia da Capela de Eternidade surtindo efeito mais uma vez...

FIM
